terça-feira, 26 de outubro de 2010

Legião Urbana vive!

Após 14 anos da tempestade que deixou desolados milhares de fãs em todo o Brasil, Renato Russo não está morto.

Pelo menos enquanto as canções da Legião Urbana permanecerem nas bocas e nos corações dos fãs, suas mensagens continuarão vivas.

O mesmo se diz comerciamente: é incrível o fôlego que a obra legionária mantém nas lojas de todo o Brasil. Média de vendas muito melhor do que muitos artistas em atividade; todos os álbuns permanecem em catálogo (tente procurar o primeiro álbum de um grupo há anos em atividade e veja a diferença), sem falar na última cartada da banda: o relançamento em box, em cds avulsos e em vinil de todos os oito discos de estúdio, contendo fotos e textos inéditos. Coisa para antigo fãs. Coisa para novos fãs. coisa para simpatizantes da banda. Coisa para curiosos. Coisa para todos que gostam de boa música, num cenário que se mostra tão medíocre com essas bandas de rock atuais, que nada dizem para esta geração.

Pensando asim, dá orgulho em ser legionário, uma vez que não há um culto assim no Brasil. Lá fora cultua-se até hoje Beatles, Elvis, The Smiths e muitos outros. E aqui no Brasil? Que memória fazemos de nossos grupos de rock mais expressivos? Talvez um Raul Seixas e um Cazuza ainda sejam lembrados, mas não como acontece com a Legião Urbana. Os seguidores desta banda recusam-se a deixar que ela seja esquecida.

Filmes têm previsão de lançamento para o ano que vem. A vida em Brasília do jovem Renato Russo será lembrada em "Somos Tão Jovens". A saga "Faroeste Caboclo" também chegará às telas. enfim, tudo para levar à frente o nome de Renato Russo e da Legião Urbana.

O fôlego da Legião Urbana é incrível! E os fãs somos responsáveis por levar o nome da banda às futuras gerações, mantendo as canções legionárias vivas. Afinal, como o próprio Renato dizia, "A Legião Urbana hoje em dia só existe por causa dos fãs". Força sempre!

Paulo Avila.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Um resumo de UMA LEITURA PÓS-MODERNA DA OBRA DE RENATO RUSSO

Na verdade, o que pretendo mostrar no meu trabalho acadêmico?

Talvez o resumo da monografia explique:

RESUMO

Com esta monografia pretendemos mostrar a importância da obra de Renato Russo como vocalista e letrista da banda brasileira de rock'n'roll Legião Urbana dentro do contexto do mundo pós-moderno, cujo sujeito encontra-se fragmentado numa sociedade pluralista; esta mesma sociedade passa por diversas transformações nos séculos XX e XXI, afetando os diversos setores da nossa sociedade. Mudanças essas que têm o seu reflexo na política, na economia, na literatura, na música, na pintura, enfim, nas artes em geral. Dentro desse contexto, a Legião Urbana emergiu e sua obra torna-se referência para a arte contemporânea. Assim, será analisada a obra poética de Renato Russo pelo viés pós-moderno, a partir da construção da identidade, da fragmentação da sociedade contemporânea e da voz do marginal e das minorias, em especial das mulheres. Será visto ainda como o hibridismo, o hiper-real, a metonímia e a paródia estão presentes no poema épico contemporâneo “Faroeste Caboclo”. Para este trabalho foram utilizadas obras de teóricos que tratam sobre a pós-modernidade, tais como Linda Hutcheon, Perry Anderson, Steven Connor, David Harvey, Zigmunt Bauman, Stuart Hall, entre outros; e livros específicos sobre a vida, os pensamentos, as ideias e a análise das letras de Renato Russo, que nos ajudarão a fazer o paralelo entre as principais questões pós-modernas e a poética do poeta contemporâneo.

Palavras-chave: Renato Russo, Legião Urbana, Pós-moderno, Pós-modernidade.
Mais algumas fotos da minha apresentação:





Uma Leitura Pós-Moderna da Obra de Renato Russo


Como vocês sabem, meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) foi sobre a Poética Romântica de Renato Russo. Tentei mostrar como havia uma ideologia do romantismo nas letras de Russo. O trabalho foi um sucesso e acabei ganhando um 10. Alguns capítulos, inclusive, foram postados aqui.
Aí, entrei, em 2009, na pós-graduação em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. E aí? Sobre o que escrever na monografia? Como estudamos muito sobre pós-modernismo, tive então a ideia (não muito aceita pelo meu orientador no início) de falar novamente sobre Renato Russo, desta vez sobre uma perspectiva pós-moderna.

Não teve jeito: escrevi UMA LEITURA PÓS-MODERNA DA OBRA DE RENATO RUSSO, que considero um trabalho inferior ao anterior, mas até bem interessante. Mais uma vez Renato me ajudou em um momento importante em minha vida. O trabalho me valeu um 9, e, como disse a professora que orientou a pesquisa (a "pré-monografia"), isso faz de mim um pesquisador dentro dessa área que eu me propus a estudar (Renato Russo na literatura).
E acabou sendo ainda mais uma homenagem que fiz ao nosso poeta. Ele merece isso.
A defesa da monografia foi no dia 27/09/2010, às 13h, na Universidade Severino Sombra, Vassouras-RJ. Estão postadas fotos com alguns momentos da minha apresentação.

Paulo Avila.

Voltando a postar...

Caros legionários...

Fiquei tanto tempo sem postar nada por conta de problemas pessoais e por não ter muito tempo para acessar a internet e eis que entro no blog e encontro tanta gente seguindo este espaço que criei para contar tudo sobre o universo da Legião Urbana! Muito obrigado pelos mais de 11.000 acessos! Farei o possível para manter este espaço sempre atualizado para que possamos trocar ideias e histórias sobre essa que é a banda que marcou várias gerações, que marcou principalmente nossas vidas!
Abraços legionários e força sempre!
Paulo Avila.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Cedo demais...

Onze de outubro de 1996.

Era um dia de sol. Acordei um pouco triste. Tudo que eu via me deixava melancólico.

Eu já morava em Vassouras (sou carioca), e precisei ir ao Rio naquela semana para resolver minhas pendências com o serviço militar (graças a Deus conseguira ser dispensado por excesso de contingente). Por isso estava lá, na casa de uma família amiga, e me arrumava para voltar para Vassouras.

No trem, eu me sentia muito estranho, triste, parecia que algo havia acontecido. Quando desembarquei em Paracambi, passei perto de um bar e ouvi, no rádio, alguém falando de Renato Russo e logo em seguida tocou uma canção em italiano. Senti um aperto no coração, não sabia o motivo. Depois peguei o ônibus que faz a linha Paracambi-Vassouras e a viagem de pouco mais de uma hora me deixou melancólico. Cheguei a Vassouras aproximadamente às 14 horas. Saí do ônibus e me encaminhei para minha casa. A cidade, o meu bairro pareciam um grande deserto. Não me encontrei com ninguém, eu parecia o único sobrevivente de Vassouras a andar pelas ruas. Senti medo, apreensão; meu coração, não sabia por que, batia acelerado, angustiado...

Entrei em casa correndo, e só havia silêncio. Encontrei minha mãe em outro cômodo e perguntei, olhando para o seu rosto de preocupação: “Mãe, o que aconteceu?”

Ela olhou para mim com tristeza e me perguntou se eu ainda não sabia o que havia acontecido. E eu: “O que aconteceu, mãe?”

“O Renato Russo morreu nesta madrugada”, disse ela com uma tristeza dupla: primeiro porque ela aprendera a gostar do meu ídolo graças à minha paixão pela banda, e, de tanto ouvir Legião em casa, ela acabou gostando de várias canções. A outra tristeza foi por já saber qual seria a minha reação pelo impacto daquela trágica notícia.

Parecia um pesadelo. Olhei para minha mãe, incrédulo. Tentei dizer que era mentira, um engano, qualquer coisa. Mas não era engano, ele havia morrido, havia partido cedo demais, deixando milhares de fãs órfãos: legionários que adotaram as palavras do líder da Legião Urbana como filosofia de vida, como um alento diante da fúria do mundo.

Para mim, o mundo acabaria naquele momento. Senti uma dor tão grande... As lágrimas e o choro desesperado saiam sem cessar. Corri para o quarto e chorei sufocado no travesseiro. Minha mãe foi me consolar e só me ouvia dizer aos soluços: “Eu quero morrer!...”

Passei toda aquela tarde, noite e os dias seguintes chorando... “O pra sempre sempre acaba”, o Renato mesmo já havia alertado. Mas a gente nunca espera que seja tão rápido assim. Mas “os bons morrem jovens”, era outra verdade dita pelo Renato.

Assim, senti a maior dor da perda desde a morte do meu pai. Senti-me gota d'água, grão de areia.

O meu ídolo havia partido... Deixando assim suas canções, suas palavras eternizadas em cada obra registrada pela Legião Urbana. O homem morreu. Nasceu o mito.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Momentos de fé e devoção catártica


Ainda sobre o show que eu fui, no dia seguinte (10/10/1994) meu amigo me deu uma reportagem que havia saído naquele dia no jornal O Globo. Era uma matéria sobre o show: “A Legião e seus seguidores”, pela jornalista Nayse López.

No fim da matéria havia uma crítica bem interessante feita por Tom Leão sobre o referido show: "Momentos de fé e devoção catártica”. Procurei hoje pela manhã no meu arquivo de reportagens da Legião e encontrei. Acho essa crítica tão interessante que vou transcrevê-la na íntegra para mostrar bem o que foi esse show que eu fui:

“Legião Urbana não faz mais shows. Faz cultos. O que aconteceu neste fim de semana no Metropolitan foi um congraçamento da banda com seus fiéis. Estes não se importaram se o som deixou a desejar e nem com a pedreira que é entrar e sair doVia Parque em noites de espetáculo. Eles só queriam ver Bispo Renato Russo e seus obreiros, que iniciaram a celebração com música clássica e terminaram jogando ramos de flores na plateia.
Os maiores momentos de fé aconteceram na abertura, com SERÁ, no módulo acústico que destacou GERAÇÃO COCA-COLA e teve seu ápice na quilométrica FAROESTE CABOCLO, cantada com fervor por todos os presentes. Russo foi embora perguntando QUE PAÍS É ESTE, voltou rapidamente e saiu de cena com seu púlpito em meio a luzes celestiais. Só faltou levitar. E todos disseram ao final: ‘Aleluia!’.”

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Metropolitan - 09/10/1994


A banda, então, atacou de SERÁ. Todo mundo pulava e cantava junto. Emocionante! Uma bela abertura. Renato estava usando uma bata branca e calça preta. Acho que ele usou essas roupas em todas as apresentações dessa turnê.

EU SEI foi a próxima, causando também muita emoção ao público. Quando Renato arriscou a sua “dança epiléptica” pela primeira vez, todo mundo começou a gritar. E foi assim sempre que ele começava a dançar. Em seguida a banda tocou LA NUOVA GIOVENTÚ, que Renato cantou e dançou com empolgação, seguido pela banda, que tocava bem rápido, bem pesado, bem punk.

AINDA É CEDO foi bem recebida logo aos primeiros acordes. Renato inseriu trechos da já conhecida GIMME SHELTER, dançou muito e terminou rolando no chão, debatendo-se e simulando uma relação sexual. Os fãs foram ao delírio. Interessante ver como Dado criava um clima melódico nas guitarras e como Bonfá tocava com vigor a sua bateria. Mesmo tocando essa canção há anos, cada performance da banda era diferente, tinha uma carga emocional e uma catarse únicas. Quem conhece as várias versões ao vivo dessa canção concordará comigo.

Renato & cia – ajudados ainda pelos músicos convidados Fred Nascimento (violão e guitarras), Carlos Trilha (teclados) e Gian Fabra (baixo) – atacam em seguida com DANIEL NA COVA DOS LEÕES. Uma pancadaria punk bem diferente do que se ouve na versão mais pop/pós-punk do disco DOIS: pesada, rápida, agressiva, intensa.


Em seguida, Renato anuncia que cantará canções do então novo disco O DESCOBRIMENTO DO BRASIL. Eu fiquei muito feliz, pois este era o meu álbum preferido até então. Continuei cantando emocionado cada verso, diferente de algumas poucas pessoas que só estavam ali para ouvir os clássicos. A banda então tocou VINTE E NOVE, UM DIA PERFEITO e OS ANJOS. Foi um grande momento do show para mim.

Em seguida, pancadaria pura: 1965 (DUAS TRIBOS). Lembro que, quando Renato cantou “Estou do lado do bem com a luz e com os anjos”, os canhões de luz iluminaram todos os fãs.

Seguiu-se um set acústico muito interessante. MONTE CASTELO foi a primeira, deixando todos muito emocionados (inclusive eu). A essa altura, tudo ali parecia um sonho perfeito, e eu torcia para não acordar mais. Essa canção foi tão emocionante que dois jovens entraram no palco após a mesma e tentaram abraçar o Renato, sendo em seguida retirados pelos seguranças. Eu pensei na hora: “meu Deus, o Renato odeia isso, ele vai parar o show! Ele vai embora!”. Que nada! Ele estava tão de bem com a vida, estava tão feliz de estar ali no Rio de Janeiro (ou seja: em casa), diante de tantos fãs, que apenas se desviou e disse: “Uau!”. Antes de tocar a próxima, QUANDO O SOL BATER NA JANELA DO TEU QUARTO, Renato ofereceu a canção “para todos nós e para os dois rapazes que subiram no palco”.



GERAÇÃO COCA-COLA foi tocada em versão acústica, tal como a EMI ouviu a gravação em uma fita cassete em 1984, por intermédio dos Paralamas do Sucesso. Isso foi explicado pelo Renato antes de a mesma ser tocada.

O TEATRO DOS VAMPIROS foi o grande momento do set acústico, em que todo mundo cantou junto. Foi uma das que mais emocionaram o público.

Em seguida, MENINOS E MENINAS foi executada, encerrando com o refrão de O MUNDO ANDA TÃO COMPLICADO: “Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver, o mundo anda tão complicado que hoje eu quero fazer tudo por você, tudo por você, tudo por você...”. um belo final para este momento acústico.




Lembro que, em certo momento do show, Renato foi irônico ao dizer: “Eu adoro ser idolatrado! Me amem!”. Logo ele, que tinha pavor à questão do fanatismo religioso de muitos fãs... Quem conhece o Renato sabe que ele estava brincando. Ele assumiu também: “Eu adoro tocar no Rio (os fãs aplaudiram e assobiaram). Eu gosto de tocar em São Paulo também...”, os fãs, brincando, demonstraram não gostar e Renato lembrou: “São Paulo é legal também. Eu canto ‘acho que gosto de São Paulo’...”

Após o momento acústico, novamente a banda voltou a atacar. E nada melhor do que voltar com um clássico: “Há muito tempo atrás, numa terra distante, longe da civilização, existia um jovem rapaz chamado João de Santo Cristo. (Os presentes foram à loucura: era FAROESTE CABOCLO.) Esta é a sua história. Guarde com atenção estas palavras e lembrem-se: as drogas fazem você virar os seus pais”. Mais uma ironia de Russo. Os fãs cantaram a canção do 1º ao último verso, sem parar. Foi incrível! No final, Renato dançava de forma frenética, contagiante.

PAIS E FILHOS foi o clássico seguinte. Todo mundo cantou junto novamente, principalmente no seu refrão redentor. Interessante ver como as guitarras, ao vivo, ficaram mais pesadas, não só nesta mas também em várias outras canções. Legião sempre foi uma banda de rock, embora muita gente fale que é MPB. Os shows provavam o contrário! Ao final dessa canção esperei pelo cover de STAND BY ME, como foi feito na turnê de AS QUATRO ESTAÇÕES, mas isso não aconteceu.

A próxima foi o grande hino da juventude, uma das mais belas canções do rock nacional, com toda certeza: TEMPO PERDIDO. Fiquei tão emocionado! Não lembro se chorei, mas foi uma das que mais me deixaram arrepiado, já na introdução melancólica e nostálgica.

GIZ foi a próxima, com certeza para acalmar os ânimos exaltados dos fãs com tantos clássicos, mas sem deixar de nos emocionar. Ele explicou que na infância ele gostava de rabiscar mesmo o sol; cantou uma musiquinha infantil (não me lembro como era) para explicar como eles faziam para chamar o sol. E disse: “que bobeira, né, gente?”.




EDUARDO E MONICA reiniciou a sessão “clássicos”, numa versão mais moderna, meio blues, com guitarrinha, teclados... Eu já tinha lido numa entrevista que o Renato tivera problemas nos anos 80, quando tocava essa canção. O motivo? Os presentes no show queriam que a banda tocasse a mesma exatamente como era a versão no disco. E o Renato ficava nervoso com isso: “as pessoas querem que eu toque ‘Eduardo e Monica’ exatamente como está no disco isso não é rock’n roll; eu toco como eu quero!”, foi mais ou menos o seu comentário na época. Já no show em que eu fui, tudo ocorreu muito bem, sem problemas: as pessoas cantavam juntas, pulavam, dançavam... Ali, naquele momento, eu presenciava um momento de amor e devoção dos fãs para com a banda e vice-versa.

Renato anunciou: “Eu tô com vontade de tocar uma balada!” e a banda tocou a canção de (des)amor mais linda e melancólica do nosso rock: a reflexiva VENTO NO LITORAL. Posso dizer, com certeza absoluta que esta, ao lado de FAROESTE CABOCLO, foram as duas canções mais ovacionadas pelos fãs. Esta balada foi tão emocionante que pude perceber que muitos namorados se abraçavam mais, criando um clima de ternura e amor.

HÁ TEMPOS animou os fãs, numa versão um pouco mais rápida do que a original. Em seguida veio “ÍNDIOS” em que Renato perguntou: “ A gente sabe tocar “ÍNDIOS” com a banda?”. Todo mundo foi ao delírio. Aí ele brincou, citando a Blitz. Errou a letra, mandou parar e perguntou à banda como era a 2ª estrofe da banda, induzindo os fãs ao erro: puxou de forma errada “Esquecer o que ninguém consegue entender...” e disse que tínhamos errado. Eu fiquei feliz, pois eu disse comigo mesmo “Está errado!” e não cantei. Muitos foram na dele e se deram mal! Quando ele finalmente puxou certo, todo mundo cantou junto e a canção ganhou força a cada estrofe. No final, Dado andou de um lado para o outro com sua guitarra (dançando?), parecia que iria cair. Foi bem legal. Para encerrar a canção, Renato emendou BLUE SUEDE SHOES, do Elvis.

Quando eu ainda recuperava o fôlego, ainda em estado de transe, Renato anunciou: PERFEIÇÃO. Posso dizer que era uma das canções que eu mais estava esperando. E foi demais: a guitarra pesada e distorcida de Dado, a bateria vibrante e meio tribal de Bonfá, a letra declamada de Russo. Quando a canção entrou na última parte (“Venha, meu coração está com pressa...”), os fãs criaram um clima religioso erguendo os braços fervorosamente com se fosse uma oração. Renato cravou mais um cover: LITHIUM, do Nirvana. Pensando nesse momento hoje, vejo que nada era feito isoladamente: a letra começava em forma de protesto, ironia e descrença absoluta diante da nossa realidade, terminava com um hino de esperança para o futuro e tinha, ao vivo, trechos da já citada LITHIUM, em que Kurt Cobain tentava manter a sanidade em meio ao caos de sua vida pública e privada. Havia paralelos interessantes com Renato, que havia vencido uma batalha pessoal contra as drogas e o álcool.

A banda deixou o palco e eu pensei: “Eles têm que voltar!”. Ansiedade e espera. O público gritava “É Legião! É Legião!” e “Uh, uh! É Legião!”. Então, a banda correspondeu às nossas expectativas retornando ao palco. Renato brincou dizendo que o show iria acabar e ameaçou sair novamente.

Atendendo a pedidos, segundo Russo, a banda tocou uma versão bonita e mais curta de ANDREA DORIA. Na verdade, eu estava ouvindo pedidos para FÁBRICA. “Toca FÁBRICA!”, era o que eu ouvi com uma certa frequência.

VAMOS FAZER UM FILME foi mais uma canção do último disco; esta é uma das minhas preferidas e eu queria muito ouvi-la ao vivo! Ficou linda: mais rock, a guitarra ficou mais estridente e, no fim, Renato cantou “eu te amo” à capela, perguntando aos presentes: “Como é que se diz eu te amo?”. Foi perfeito.

Enfim, a última canção exigia uma reflexão diante do cenário brasileiro: QUE PAÍS É ESTE, pesada, agressiva, repleta de ironia. Renato cantou CAJUÍNA, de Caetano; brincou com a ridícula PINTINHO AMARELINHO, do programa trash do Gugu Liberato. Era uma forma de Renato criticar o sensacionalismo e a mediocridade da televisão brasileira. Por isso, Renato cantou essa música e inventou as vídeo-chineladas do Chinelão (mera coincidência com as vídeo-cassetadas do Faustão?), para mostrar como a violência e a futilidade dos programas de auditório são os grandes atrativos da mídia. “Vamos pegar aquela ali, ó! Cuidado aí senão vai cair na porrada!”, interpretava Renato com toda a sua ironia. AQUELE ABRAÇO, sucesso do Gilberto Gil, também apareceu no meio da canção. Por fim, Renato, enquanto a banda tocava, conversava com os fãs dizendo que, para mudar o país, era preciso primeiro mudar a nós mesmos, “ajuda pra caramba!”. E era verdade: não adianta falar em futuro do país se fomentamos a violência e alimentamos tudo o que é grotesco e ao mesmo tempo corriqueiro na sociedade. Era preciso uma mudança de consciência e de atitude no dia a dia. Na última estrofe, Renato pediu para a banda parar de tocar e disse: “Agora, são vocês que vão pra casa, que vão pensar como o país vai ficar rico sem precisar matar ninguém”.

Era o fim do show – que era muito mais que um mero show. Renato havia dito numa entrevista naquela semana para o jornal O Globo: “Quando as pessoas cantam as nossas canções é como uma celebração. Nossos shows não são somente entretenimento. Cantamos músicas que marcam e, de repente, são todas tribais. A gente é a banda de rock mais rock do Brasil”. Isso sintetiza a importância da Legião não apenas para a música brasileira, mas para o pensamento e a ideologia jovem, tão desgastados pela pobreza do rock nacional atual.

A banda saiu de cena e retornou com vários buquês de rosas, que foram jogadas para o público. Infelizmente não peguei nenhuma, mas o mais importante eu havia finalmente presenciado: a magia de ver a Legião no palco. Um momento inesquecível!

Aquele viria a ser o meu primeiro e último show da Legião Urbana. O penúltimo no Rio (uma semana depois, na sexta, dia 14/10/1994, a pedidos da direção da casa, como o próprio Renato havia dito no show em que eu fui, haveria mais uma apresentação) e o antepenúltimo da história da banda (o último seria em Santos, em janeiro de 1995).

Posso dizer que nunca mais verei um show como aquele. Fui para casa com as imagens do show registradas em minha mente e em meu coração. Na volta do ônibus, a lembrança de Renato, Dado e Bonfá no palco me deixavam feliz e realizado. Fiquei ainda em estado de êxtase por mais alguns dias e continuei não sentindo o gosto dos alimentos. Só voltei ao normal uma semana depois.

Hoje vejo que realmente “o pra sempre sempre acaba”, mas os bons momentos sempre serão lembrados com carinho. A minha história de amor com a Legião ratifica essa afirmação.

URBANA LEGIO OMNIA VINCIT.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Show da Legiao Urbana no Rio - eu fui! (09/10/1994)

Nunca me esquecerei do dia em que fui a um show da Legião Urbana...

A imagem de Renato / Dado / Bonfá na minha frente tocando e cantando suas inesquecíveis canções ficará para sempre registrada em minha mente e em meu coração.

Digam o que quiserem sobre a Legião: que são músicos limitados, que o Renato esquecia algumas letras, que as apresentações eram puramente histeria coletiva beirando ao fanatismo... Não importa. Nada se compara a um show da Legião. Bono e seu U2 são incríveis ao vivo? Sim, são. Mas não são a Legião!

Como disse Dado certa vez, “show da Legião, sempre uma nova emoção”. É a pura verdade!

Em algum dia de setembro de 1994 vejo na TV o comercial do show que aconteceria no Rio nos dias 08 e 09 de outubro daquele ano.

“Nossa! A Legião vai tocar no Rio!”, pensei. Era a minha chance de assistir finalmente ao show da minha banda do coração. Eu já tinha todos os discos, legionário convicto, só me faltava assistir a um show da banda.

Eu tinha 17 anos e minha mãe foi comprar o ingresso para mim e para um colega que iria comigo. Quando cheguei do colégio, fiquei decepcionado por saber que nos postos de venda não havia mais ingressos. Tudo esgotado!

Fui falar com meu colega e resolvemos ir à Barra da Tijuca, shopping Via Parque, onde ficava a antiga casa de shows Metropolitan (local do show). Lá fomos nós. Eu estava ansioso demais, não conseguia comer nada, no ônibus só ficava pensando na possibilidade de encontrar os ingressos.

Chegamos lá e havia uma pequena fila. Algumas pessoas estavam comprando vários ingressos. Na nossa vez, pedimos dois ingressos e a atendente disse: “acabou...” e eu pensei “Meu Deus!..”; mas ela continuou: “Só tem para domingo, sábado está esgotado”. Que alívio!

Fomos para casa felizes e ansiosos. Em casa peguei os encartes dos discos e fiquei lendo as letras para poder cantar todas na ponta da língua junto com o Renato. Isso era uma sexta-feira.

No sábado percebi que não conseguia sentir o gosto da comida. Disse para minha mãe que estava sem sal, mas ela disse que era engano meu. Coloquei mais sal: nada – não sentia gosto da comida. Percebi que estava sofrendo de ansiedade e perdi o apetite e não sentia o gosto dos alimentos. Estava entrando em transe, ficava todo arrepiado só de imaginar o que viria.

No domingo a mesma coisa: não sentia gosto de nada. Fiquei aguardando chegar a hora, mas o tempo não passava! Meu time do coração (Fluminense) iria jogar naquele dia contra o Vasco, mas eu não me importava: o grande jogo era no Metropolitan! Depois fui saber que o jogo foi 0 x 0 (lembro que um colega sugeriu que, em vez de eu comprar ingresso para ver a Legião, eu poderia ir ver o Flu no Maracanã). Sem comentários...

Meu colega e eu fomos de ônibus, que estava lotado. O trânsito estava meio complicado, mas chegamos lá sem grandes transtornos!

Escolhi um lugar legal para ficar, bem de frente, a alguns metros do palco. Havia muitos jovens com camisas da Legião, mas também de outra bandas como Ramones, Iron Maiden, Sepultura. Todas as tribos queriam ver a Legião no palco, queriam reverenciar a grande banda de rock do Brasil – “A banda de rock mais rock do Brasil”, como dissera Renato referindo-se à própria Legião numa entrevista para o jornal O Globo naquela semana.

As horas passavam e o show não começava... Fiquei cada vez mais ansioso!

Enfim, o local começou a ficar escuro, as pessoas começavam a gritar “É Legião! É Legião!” e eu pensei: “vai começar!”

O sistema de som apresentou: “Metropolitan apresenta LEGIÃO URBANA!!!”

Todo mundo começou a gritar, parecia que o local estava mais cheio ainda (pois todo mundo começou a se aproximar mais e mais, quase não dava para se mexer).

Como o Renato era fã de música clássica, a introdução teve início com um instrumental que não sei o nome, mas já era emocionante, deu um clima legal!

Quando acabou, a cortina se abriu e os músicos entraram no palco, indo para seus postos. Renato surgiu logo em seguida segurando algumas flores nas mãos e, num sorriso, disse: “Boa noite! Vocês estão prontos?”

Precisava responder? Mas eu murmurei, rindo de felicidade: "É claro que estou!"

A partir dali, nada mais parecia real. Foi uma experiência mística, indescritível, única!

Sei que partes desse show passaram na Bandeirantes e mais tarde um disco duplo com o título “Como é que se diz eu te amo” foi lançado pela EMI, mas mesmo assim nada se compara com o que vivi naquele momento, naquelas pouco mais de duas horas de apresentação.

Ainda hoje, quando me lembro desse dia, eu fico arrepiado e me vem à mente imagens bem nítidas da apresentação legionária.

Na próxima postagem tentarei ser o mais fiel possível para descrever esse show memorável...

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Dois, segundo disco da Legião Urbana – um clássico


Passada a empolgação gerada pelo sucesso do 1º disco, a Legião Urbana entrou em estúdio em 1986 para lançar o 2º disco da sua carreira. A idéia inicial era a de lançar um disco duplo, com o pomposo título de “Mitologia e Intuição”, mas a idéia foi abortada pela gravadora EMI. Afinal, a Legião ainda não estava no 1º escalão do cast da gravadora. Assim, o disco foi simplesmente batizado com o singelo título “Dois”, lançado em julho de 1986. Passada a energia adolescente e primária do 1º LP, “Dois” foi responsável por trazer uma produção mais elaborada, mais pensada. Enquanto o 1º disco era mais explosivo, este trazia temas mais espirituais, emotivos, confessionais. Ainda havia dois punks básicos: a irônica e agressiva Metrópole (denunciando o sensacionalismo mórbido e a indiferença nas grandes cidades diante da violência e da desgraça alheia) e Fábrica (com uma temática social pedindo dignidade, justiça, compaixão e trabalho sem exploração). Mas o som soava diferente na maior parte do disco: um rock básico costurado por nuances pop e folk (uma das grandes paixões do Renato – Beatles, Bob Dylan...).


O disco abre com Daniel na Cova dos Leões, com um título bíblico e letra que Renato considerava explicitamente homossexual. “Essa música fala de sexo oral”, diria mais tarde. Acrilic on Canvas é uma balada sofisticada, ideal para os mais sentimentais, que trata sobre saudade após ao fim de um relacionamento. Eduardo e Mônica é a 1ª historinha a aparecer num disco da Legião, com personagens, começo, meio e fim, mostrando o amor na vida de dois jovens totalmente diferentes um do outro. Bem mais tarde Renato chegou a dizer que a Mônica da história era uma amiga sua de Brasília, Leonice Coimbra; já Eduardo era ele mesmo, “só que menos bobo”. Tempo Perdido foi descrita pelo antropólogo Hermano Vianna – num texto que ele escreveu para a caixa lançada em 1995 com os cds remasterizados da banda – como “um dos momentos mais lindamente melancólicos da história da música pop”. Essa canção foi a música de trabalho do disco, considerada um hino para a juventude com seus belos versos e instrumental que foi acusado de copiar o som da banda inglesa The Smiths, grande ícone dos anos 80, que Renato era fã. O clipe dessa canção trazia fotos de jovens flagrados pouco antes da fama – gente como John Lennon, Janis Joplin, Jimi Hendrix entre outros ídolos do Renato.

“Índios” (assim mesmo, entre aspas) teve a letra escrita pelo Renato no estúdio, quando o disco já estava no fim. Com tantas canções belas, Dois foi finalmente lançado em julho de 1986. Como a idéia original de ser um disco duplo foi abortada, muita coisa ficou de fora, entre eles uma versão roqueira de Juízo Final, samba de Nelson Cavaquinho. Algumas músicas antigas dos tempos de Brasília também ficaram de fora. Segundo Bonfá, “as músicas eram lindas, mas foi uma fase difícil de criação, era muito experimental”. Assim, a banda foi conquistando cada vez mais fãs em todo o Brasil, ganhando inclusive prêmios na revista Bizz, e Renato Russo se destacou, ao lado de Cazuza e Arnaldo Antunes, como o grande letrista da sua geração.

Dois se tornou o grande clássico da banda, a obra-prima, e hoje já deve ultrapassar a marca de 2 milhões de cópias vendidas.

terça-feira, 14 de abril de 2009

A formação da Legião Urbana e o primeiro LP

Cansado da carreira-solo e com a nova possibilidade que o Aborto Elétrico tinha aberto para as novas bandas que surgiam em Brasília, Renato – em 82 – ficou poucos meses apresentando-se como O Trovador Solitário.

Mas ele queria mesmo era ter uma banda de rock. Por isso, convidou o baterista Marcelo Bonfá para formar com ele a Legião Urbana, com a idéia de um núcleo de baixo-bateria. Depois, juntaram-se a eles o guitarrista Eduardo Paraná e o tecladista Paulo Paulista.


O 1º show da banda aconteceu no dia 05/09/1982 na cidade mineira de Patos de Minas, junto com a banda Plebe Rude. Logo após Paraná (ele tocava bem demais e solava sem parar, e Renato e Bonfá eram contra, pois queriam algo mais simples – o espírito despojado e direto do punk ainda estava imbuído neles) e Paulo Paulista deixam a banda. Ico Ouro-Preto (irmão do Dinho do Capital Inicial) assume a guitarra. Às vésperas de um festival na Associação Brasiliense de Odontologia, que reuniria as grandes bandas locais (Legião, Capital, Plebe Rude e XXX), Ico deixa a banda em março de 83 (reza a lenda que ele morria de medo do palco, de tocar em show, e já havia feito isso com o Aborto Elétrico).

A banda procura às pressas um novo guitarrista e encontrou um jovem tímido e diabético que – mesmo sem saber tocar direito – encaixava-se bem na estética do punk: Dado Villa-Lobos. Ele aprendeu algumas canções em poucas semanas e, em abril, a Legião foi a zebra do festival. Isso causou um ânimo novo à banda, e os três passaram a ensaiar juntos e algo estava acontecendo entre aqueles três jovens: eles se identificavam e se entendiam muito bem. Havia uma química muito forte entre os três. Naquele mesmo ano resolveram deixar Brasília e fizeram apresentações em boates em São Paulo e Rio de janeiro.



A 1ª apresentação no Rio aconteceu no dia 23/07/83 no Circo Voador. Naquele ano eles gravaram a 1ª fita demo e havia a expectativa de gravar um disco na gravadora Emi-Odeon com a ajuda dos Paralamas, que fazia parte da gravadora. Em 1984 Renato (já tendo assumido o sobrenome artístico Russo) corta os pulsos (para chamar a atenção de um rapaz por quem se apaixonara; outros especulam que foi porque ele estava com medo de não conseguir o contrato p/ gravar o 1º Lp da banda com a gravadora Emi). Mas o problema trouxe uma solução prática: como ele havia perdido alguns movimentos por ter cortado os pulsos, era preciso chamar alguém para substituí-lo no baixo. Bonfá chama então Renato Rocha (conhecido como Negrete e, mais tarde, por gostar de fazendas, como Billy) para o baixo, deixando Renato Russo livre para cantar e compor suas letras. Finalmente naquele ano a banda entra em estúdio p/ gravar seu 1º Lp, que seria batizado apenas de Legião Urbana (embora a idéia inicial era batizá-lo com o nome de Revoluções por Minuto).



O Lp foi lançado em janeiro de 84, e ficou seis meses hibernando, sem efeito. Depois, as canções começaram a tomar as rádios, uma após a outra (Será, Ainda é Cedo, Geração Coca-Cola...) e o disco vendeu 100 mil cópias, o que era impressionante para a época. Sobre o disco, Renato disse certa vez: “Nesse 1º Lp fomos mais agressivos. A gente precisava abrir uma porta, então tinha que bater com força”. O disco fala sobre alienação, dramas amorosos, juventude, política. A influência é de grupos pós-punks, como Joy Division, Cure, Public Image Ltda (PIL), Gang of Four... O disco tinha até um reggae (O Reggae), com uma letra que denunciava a falência da educação no Brasil.

Soldados é considerada a 1ª canção da Legião com uma sensibilidade gay: segundo Renato, era a história de dois meninos que brincam de soldados quando as meninas estão longe. Por Enquanto encerra o disco de forma reflexiva, sem guitarras, apenas com sintetizadores. Sobre a canção, Renato falou: “Nas gravações do disco tinha aquela tensão de correr: morar em Brasília e gravar no Rio. Por Enquanto foi feita em cima disso”. Isso explica o último verso: “Estamos indo de volta pra casa”.

Desse disco saiu o 1º clipe da banda, com a música Será: simples e despojado, como manda o som da banda. A Legião conseguiu provar que tinha talento e não havia sido contratada apenas por ser amiga dos Paralamas (o Renato dizia que os Paralamas eram padrinhos da Legião). Vários shows foram feitos, criando-se, assim, muita expectativa em cima do 2º Lp da banda, que seria gravado em 86.