quarta-feira, 20 de maio de 2009

Metropolitan - 09/10/1994


A banda, então, atacou de SERÁ. Todo mundo pulava e cantava junto. Emocionante! Uma bela abertura. Renato estava usando uma bata branca e calça preta. Acho que ele usou essas roupas em todas as apresentações dessa turnê.

EU SEI foi a próxima, causando também muita emoção ao público. Quando Renato arriscou a sua “dança epiléptica” pela primeira vez, todo mundo começou a gritar. E foi assim sempre que ele começava a dançar. Em seguida a banda tocou LA NUOVA GIOVENTÚ, que Renato cantou e dançou com empolgação, seguido pela banda, que tocava bem rápido, bem pesado, bem punk.

AINDA É CEDO foi bem recebida logo aos primeiros acordes. Renato inseriu trechos da já conhecida GIMME SHELTER, dançou muito e terminou rolando no chão, debatendo-se e simulando uma relação sexual. Os fãs foram ao delírio. Interessante ver como Dado criava um clima melódico nas guitarras e como Bonfá tocava com vigor a sua bateria. Mesmo tocando essa canção há anos, cada performance da banda era diferente, tinha uma carga emocional e uma catarse únicas. Quem conhece as várias versões ao vivo dessa canção concordará comigo.

Renato & cia – ajudados ainda pelos músicos convidados Fred Nascimento (violão e guitarras), Carlos Trilha (teclados) e Gian Fabra (baixo) – atacam em seguida com DANIEL NA COVA DOS LEÕES. Uma pancadaria punk bem diferente do que se ouve na versão mais pop/pós-punk do disco DOIS: pesada, rápida, agressiva, intensa.


Em seguida, Renato anuncia que cantará canções do então novo disco O DESCOBRIMENTO DO BRASIL. Eu fiquei muito feliz, pois este era o meu álbum preferido até então. Continuei cantando emocionado cada verso, diferente de algumas poucas pessoas que só estavam ali para ouvir os clássicos. A banda então tocou VINTE E NOVE, UM DIA PERFEITO e OS ANJOS. Foi um grande momento do show para mim.

Em seguida, pancadaria pura: 1965 (DUAS TRIBOS). Lembro que, quando Renato cantou “Estou do lado do bem com a luz e com os anjos”, os canhões de luz iluminaram todos os fãs.

Seguiu-se um set acústico muito interessante. MONTE CASTELO foi a primeira, deixando todos muito emocionados (inclusive eu). A essa altura, tudo ali parecia um sonho perfeito, e eu torcia para não acordar mais. Essa canção foi tão emocionante que dois jovens entraram no palco após a mesma e tentaram abraçar o Renato, sendo em seguida retirados pelos seguranças. Eu pensei na hora: “meu Deus, o Renato odeia isso, ele vai parar o show! Ele vai embora!”. Que nada! Ele estava tão de bem com a vida, estava tão feliz de estar ali no Rio de Janeiro (ou seja: em casa), diante de tantos fãs, que apenas se desviou e disse: “Uau!”. Antes de tocar a próxima, QUANDO O SOL BATER NA JANELA DO TEU QUARTO, Renato ofereceu a canção “para todos nós e para os dois rapazes que subiram no palco”.



GERAÇÃO COCA-COLA foi tocada em versão acústica, tal como a EMI ouviu a gravação em uma fita cassete em 1984, por intermédio dos Paralamas do Sucesso. Isso foi explicado pelo Renato antes de a mesma ser tocada.

O TEATRO DOS VAMPIROS foi o grande momento do set acústico, em que todo mundo cantou junto. Foi uma das que mais emocionaram o público.

Em seguida, MENINOS E MENINAS foi executada, encerrando com o refrão de O MUNDO ANDA TÃO COMPLICADO: “Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver, o mundo anda tão complicado que hoje eu quero fazer tudo por você, tudo por você, tudo por você...”. um belo final para este momento acústico.




Lembro que, em certo momento do show, Renato foi irônico ao dizer: “Eu adoro ser idolatrado! Me amem!”. Logo ele, que tinha pavor à questão do fanatismo religioso de muitos fãs... Quem conhece o Renato sabe que ele estava brincando. Ele assumiu também: “Eu adoro tocar no Rio (os fãs aplaudiram e assobiaram). Eu gosto de tocar em São Paulo também...”, os fãs, brincando, demonstraram não gostar e Renato lembrou: “São Paulo é legal também. Eu canto ‘acho que gosto de São Paulo’...”

Após o momento acústico, novamente a banda voltou a atacar. E nada melhor do que voltar com um clássico: “Há muito tempo atrás, numa terra distante, longe da civilização, existia um jovem rapaz chamado João de Santo Cristo. (Os presentes foram à loucura: era FAROESTE CABOCLO.) Esta é a sua história. Guarde com atenção estas palavras e lembrem-se: as drogas fazem você virar os seus pais”. Mais uma ironia de Russo. Os fãs cantaram a canção do 1º ao último verso, sem parar. Foi incrível! No final, Renato dançava de forma frenética, contagiante.

PAIS E FILHOS foi o clássico seguinte. Todo mundo cantou junto novamente, principalmente no seu refrão redentor. Interessante ver como as guitarras, ao vivo, ficaram mais pesadas, não só nesta mas também em várias outras canções. Legião sempre foi uma banda de rock, embora muita gente fale que é MPB. Os shows provavam o contrário! Ao final dessa canção esperei pelo cover de STAND BY ME, como foi feito na turnê de AS QUATRO ESTAÇÕES, mas isso não aconteceu.

A próxima foi o grande hino da juventude, uma das mais belas canções do rock nacional, com toda certeza: TEMPO PERDIDO. Fiquei tão emocionado! Não lembro se chorei, mas foi uma das que mais me deixaram arrepiado, já na introdução melancólica e nostálgica.

GIZ foi a próxima, com certeza para acalmar os ânimos exaltados dos fãs com tantos clássicos, mas sem deixar de nos emocionar. Ele explicou que na infância ele gostava de rabiscar mesmo o sol; cantou uma musiquinha infantil (não me lembro como era) para explicar como eles faziam para chamar o sol. E disse: “que bobeira, né, gente?”.




EDUARDO E MONICA reiniciou a sessão “clássicos”, numa versão mais moderna, meio blues, com guitarrinha, teclados... Eu já tinha lido numa entrevista que o Renato tivera problemas nos anos 80, quando tocava essa canção. O motivo? Os presentes no show queriam que a banda tocasse a mesma exatamente como era a versão no disco. E o Renato ficava nervoso com isso: “as pessoas querem que eu toque ‘Eduardo e Monica’ exatamente como está no disco isso não é rock’n roll; eu toco como eu quero!”, foi mais ou menos o seu comentário na época. Já no show em que eu fui, tudo ocorreu muito bem, sem problemas: as pessoas cantavam juntas, pulavam, dançavam... Ali, naquele momento, eu presenciava um momento de amor e devoção dos fãs para com a banda e vice-versa.

Renato anunciou: “Eu tô com vontade de tocar uma balada!” e a banda tocou a canção de (des)amor mais linda e melancólica do nosso rock: a reflexiva VENTO NO LITORAL. Posso dizer, com certeza absoluta que esta, ao lado de FAROESTE CABOCLO, foram as duas canções mais ovacionadas pelos fãs. Esta balada foi tão emocionante que pude perceber que muitos namorados se abraçavam mais, criando um clima de ternura e amor.

HÁ TEMPOS animou os fãs, numa versão um pouco mais rápida do que a original. Em seguida veio “ÍNDIOS” em que Renato perguntou: “ A gente sabe tocar “ÍNDIOS” com a banda?”. Todo mundo foi ao delírio. Aí ele brincou, citando a Blitz. Errou a letra, mandou parar e perguntou à banda como era a 2ª estrofe da banda, induzindo os fãs ao erro: puxou de forma errada “Esquecer o que ninguém consegue entender...” e disse que tínhamos errado. Eu fiquei feliz, pois eu disse comigo mesmo “Está errado!” e não cantei. Muitos foram na dele e se deram mal! Quando ele finalmente puxou certo, todo mundo cantou junto e a canção ganhou força a cada estrofe. No final, Dado andou de um lado para o outro com sua guitarra (dançando?), parecia que iria cair. Foi bem legal. Para encerrar a canção, Renato emendou BLUE SUEDE SHOES, do Elvis.

Quando eu ainda recuperava o fôlego, ainda em estado de transe, Renato anunciou: PERFEIÇÃO. Posso dizer que era uma das canções que eu mais estava esperando. E foi demais: a guitarra pesada e distorcida de Dado, a bateria vibrante e meio tribal de Bonfá, a letra declamada de Russo. Quando a canção entrou na última parte (“Venha, meu coração está com pressa...”), os fãs criaram um clima religioso erguendo os braços fervorosamente com se fosse uma oração. Renato cravou mais um cover: LITHIUM, do Nirvana. Pensando nesse momento hoje, vejo que nada era feito isoladamente: a letra começava em forma de protesto, ironia e descrença absoluta diante da nossa realidade, terminava com um hino de esperança para o futuro e tinha, ao vivo, trechos da já citada LITHIUM, em que Kurt Cobain tentava manter a sanidade em meio ao caos de sua vida pública e privada. Havia paralelos interessantes com Renato, que havia vencido uma batalha pessoal contra as drogas e o álcool.

A banda deixou o palco e eu pensei: “Eles têm que voltar!”. Ansiedade e espera. O público gritava “É Legião! É Legião!” e “Uh, uh! É Legião!”. Então, a banda correspondeu às nossas expectativas retornando ao palco. Renato brincou dizendo que o show iria acabar e ameaçou sair novamente.

Atendendo a pedidos, segundo Russo, a banda tocou uma versão bonita e mais curta de ANDREA DORIA. Na verdade, eu estava ouvindo pedidos para FÁBRICA. “Toca FÁBRICA!”, era o que eu ouvi com uma certa frequência.

VAMOS FAZER UM FILME foi mais uma canção do último disco; esta é uma das minhas preferidas e eu queria muito ouvi-la ao vivo! Ficou linda: mais rock, a guitarra ficou mais estridente e, no fim, Renato cantou “eu te amo” à capela, perguntando aos presentes: “Como é que se diz eu te amo?”. Foi perfeito.

Enfim, a última canção exigia uma reflexão diante do cenário brasileiro: QUE PAÍS É ESTE, pesada, agressiva, repleta de ironia. Renato cantou CAJUÍNA, de Caetano; brincou com a ridícula PINTINHO AMARELINHO, do programa trash do Gugu Liberato. Era uma forma de Renato criticar o sensacionalismo e a mediocridade da televisão brasileira. Por isso, Renato cantou essa música e inventou as vídeo-chineladas do Chinelão (mera coincidência com as vídeo-cassetadas do Faustão?), para mostrar como a violência e a futilidade dos programas de auditório são os grandes atrativos da mídia. “Vamos pegar aquela ali, ó! Cuidado aí senão vai cair na porrada!”, interpretava Renato com toda a sua ironia. AQUELE ABRAÇO, sucesso do Gilberto Gil, também apareceu no meio da canção. Por fim, Renato, enquanto a banda tocava, conversava com os fãs dizendo que, para mudar o país, era preciso primeiro mudar a nós mesmos, “ajuda pra caramba!”. E era verdade: não adianta falar em futuro do país se fomentamos a violência e alimentamos tudo o que é grotesco e ao mesmo tempo corriqueiro na sociedade. Era preciso uma mudança de consciência e de atitude no dia a dia. Na última estrofe, Renato pediu para a banda parar de tocar e disse: “Agora, são vocês que vão pra casa, que vão pensar como o país vai ficar rico sem precisar matar ninguém”.

Era o fim do show – que era muito mais que um mero show. Renato havia dito numa entrevista naquela semana para o jornal O Globo: “Quando as pessoas cantam as nossas canções é como uma celebração. Nossos shows não são somente entretenimento. Cantamos músicas que marcam e, de repente, são todas tribais. A gente é a banda de rock mais rock do Brasil”. Isso sintetiza a importância da Legião não apenas para a música brasileira, mas para o pensamento e a ideologia jovem, tão desgastados pela pobreza do rock nacional atual.

A banda saiu de cena e retornou com vários buquês de rosas, que foram jogadas para o público. Infelizmente não peguei nenhuma, mas o mais importante eu havia finalmente presenciado: a magia de ver a Legião no palco. Um momento inesquecível!

Aquele viria a ser o meu primeiro e último show da Legião Urbana. O penúltimo no Rio (uma semana depois, na sexta, dia 14/10/1994, a pedidos da direção da casa, como o próprio Renato havia dito no show em que eu fui, haveria mais uma apresentação) e o antepenúltimo da história da banda (o último seria em Santos, em janeiro de 1995).

Posso dizer que nunca mais verei um show como aquele. Fui para casa com as imagens do show registradas em minha mente e em meu coração. Na volta do ônibus, a lembrança de Renato, Dado e Bonfá no palco me deixavam feliz e realizado. Fiquei ainda em estado de êxtase por mais alguns dias e continuei não sentindo o gosto dos alimentos. Só voltei ao normal uma semana depois.

Hoje vejo que realmente “o pra sempre sempre acaba”, mas os bons momentos sempre serão lembrados com carinho. A minha história de amor com a Legião ratifica essa afirmação.

URBANA LEGIO OMNIA VINCIT.

11 comentários:

  1. putz cara que show!

    vc se lembra de tudo isso mesmo com detalhes?

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  2. Cara, eu me lembro de coisas com tanta nitidez, que parece que ainda estou lá!

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  3. Um poeta e grande letrista nos deixa saudades

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  4. Muito lindo, eu dava um pé pra estar la =/ pena que sou novo xD Legiao pra sempre, Renato o melhor (L)
    by : Heverton

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  5. fiquei emocionada com o seu relato teve certos momentos que cheguei a ficar arrepiada legião é uma banda incomparável, pena que não pude presenciar nenhum show... amo a legião as letras me ajudam a relaxar e esquecer um pouco os problemas... beijos e abraços carregados de boas vibrações....

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  6. Cara procuro esse show ,mas nao acho,se acaso vc tiver em seu acervo,disponibiliza pra nos,...desde ja grato,belo post,..bem completo,maravilha,...legião urbana! Força sempre!

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  7. Amigo legionário, o que eu tenho é o que quase todo mundo já viu na tv e no youtube: o especial que a Band fez no final de 1994 sobre esse show no Rio. Vou pegar alguns vídeos que tem no youtube e logo eu posto, ok?

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  8. é arrepiante só de ler isso, dava a vida pra tar nesse show ' que geração foi essa que eu vim nascer ;$ . Legião Sempre ♥

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Ano que vem vou fazer 20 anos que estou com a mãe dos meus filhos (2) e que a conheci neste show. Foi o melhor show, foi a melhor historia que tenho da minha vida. Foi onde tudo começou e que ate hoje vivo muito bem e recordamos sempre. PS.: Ainda vamos escrever um livro pro ano que vem, porque a nossa historia é muito bonita e graças ao LEGIÂO URBANA.

    Sandro e Luciana (LU)

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  11. Me arrepiei aqui,amo a Legião Urbana,e ela me faz muito bem...
    Abraços a todos !!!

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