sexta-feira, 24 de julho de 2009

Cedo demais...

Onze de outubro de 1996.

Era um dia de sol. Acordei um pouco triste. Tudo que eu via me deixava melancólico.

Eu já morava em Vassouras (sou carioca), e precisei ir ao Rio naquela semana para resolver minhas pendências com o serviço militar (graças a Deus conseguira ser dispensado por excesso de contingente). Por isso estava lá, na casa de uma família amiga, e me arrumava para voltar para Vassouras.

No trem, eu me sentia muito estranho, triste, parecia que algo havia acontecido. Quando desembarquei em Paracambi, passei perto de um bar e ouvi, no rádio, alguém falando de Renato Russo e logo em seguida tocou uma canção em italiano. Senti um aperto no coração, não sabia o motivo. Depois peguei o ônibus que faz a linha Paracambi-Vassouras e a viagem de pouco mais de uma hora me deixou melancólico. Cheguei a Vassouras aproximadamente às 14 horas. Saí do ônibus e me encaminhei para minha casa. A cidade, o meu bairro pareciam um grande deserto. Não me encontrei com ninguém, eu parecia o único sobrevivente de Vassouras a andar pelas ruas. Senti medo, apreensão; meu coração, não sabia por que, batia acelerado, angustiado...

Entrei em casa correndo, e só havia silêncio. Encontrei minha mãe em outro cômodo e perguntei, olhando para o seu rosto de preocupação: “Mãe, o que aconteceu?”

Ela olhou para mim com tristeza e me perguntou se eu ainda não sabia o que havia acontecido. E eu: “O que aconteceu, mãe?”

“O Renato Russo morreu nesta madrugada”, disse ela com uma tristeza dupla: primeiro porque ela aprendera a gostar do meu ídolo graças à minha paixão pela banda, e, de tanto ouvir Legião em casa, ela acabou gostando de várias canções. A outra tristeza foi por já saber qual seria a minha reação pelo impacto daquela trágica notícia.

Parecia um pesadelo. Olhei para minha mãe, incrédulo. Tentei dizer que era mentira, um engano, qualquer coisa. Mas não era engano, ele havia morrido, havia partido cedo demais, deixando milhares de fãs órfãos: legionários que adotaram as palavras do líder da Legião Urbana como filosofia de vida, como um alento diante da fúria do mundo.

Para mim, o mundo acabaria naquele momento. Senti uma dor tão grande... As lágrimas e o choro desesperado saiam sem cessar. Corri para o quarto e chorei sufocado no travesseiro. Minha mãe foi me consolar e só me ouvia dizer aos soluços: “Eu quero morrer!...”

Passei toda aquela tarde, noite e os dias seguintes chorando... “O pra sempre sempre acaba”, o Renato mesmo já havia alertado. Mas a gente nunca espera que seja tão rápido assim. Mas “os bons morrem jovens”, era outra verdade dita pelo Renato.

Assim, senti a maior dor da perda desde a morte do meu pai. Senti-me gota d'água, grão de areia.

O meu ídolo havia partido... Deixando assim suas canções, suas palavras eternizadas em cada obra registrada pela Legião Urbana. O homem morreu. Nasceu o mito.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Momentos de fé e devoção catártica


Ainda sobre o show que eu fui, no dia seguinte (10/10/1994) meu amigo me deu uma reportagem que havia saído naquele dia no jornal O Globo. Era uma matéria sobre o show: “A Legião e seus seguidores”, pela jornalista Nayse López.

No fim da matéria havia uma crítica bem interessante feita por Tom Leão sobre o referido show: "Momentos de fé e devoção catártica”. Procurei hoje pela manhã no meu arquivo de reportagens da Legião e encontrei. Acho essa crítica tão interessante que vou transcrevê-la na íntegra para mostrar bem o que foi esse show que eu fui:

“Legião Urbana não faz mais shows. Faz cultos. O que aconteceu neste fim de semana no Metropolitan foi um congraçamento da banda com seus fiéis. Estes não se importaram se o som deixou a desejar e nem com a pedreira que é entrar e sair doVia Parque em noites de espetáculo. Eles só queriam ver Bispo Renato Russo e seus obreiros, que iniciaram a celebração com música clássica e terminaram jogando ramos de flores na plateia.
Os maiores momentos de fé aconteceram na abertura, com SERÁ, no módulo acústico que destacou GERAÇÃO COCA-COLA e teve seu ápice na quilométrica FAROESTE CABOCLO, cantada com fervor por todos os presentes. Russo foi embora perguntando QUE PAÍS É ESTE, voltou rapidamente e saiu de cena com seu púlpito em meio a luzes celestiais. Só faltou levitar. E todos disseram ao final: ‘Aleluia!’.”

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Metropolitan - 09/10/1994


A banda, então, atacou de SERÁ. Todo mundo pulava e cantava junto. Emocionante! Uma bela abertura. Renato estava usando uma bata branca e calça preta. Acho que ele usou essas roupas em todas as apresentações dessa turnê.

EU SEI foi a próxima, causando também muita emoção ao público. Quando Renato arriscou a sua “dança epiléptica” pela primeira vez, todo mundo começou a gritar. E foi assim sempre que ele começava a dançar. Em seguida a banda tocou LA NUOVA GIOVENTÚ, que Renato cantou e dançou com empolgação, seguido pela banda, que tocava bem rápido, bem pesado, bem punk.

AINDA É CEDO foi bem recebida logo aos primeiros acordes. Renato inseriu trechos da já conhecida GIMME SHELTER, dançou muito e terminou rolando no chão, debatendo-se e simulando uma relação sexual. Os fãs foram ao delírio. Interessante ver como Dado criava um clima melódico nas guitarras e como Bonfá tocava com vigor a sua bateria. Mesmo tocando essa canção há anos, cada performance da banda era diferente, tinha uma carga emocional e uma catarse únicas. Quem conhece as várias versões ao vivo dessa canção concordará comigo.

Renato & cia – ajudados ainda pelos músicos convidados Fred Nascimento (violão e guitarras), Carlos Trilha (teclados) e Gian Fabra (baixo) – atacam em seguida com DANIEL NA COVA DOS LEÕES. Uma pancadaria punk bem diferente do que se ouve na versão mais pop/pós-punk do disco DOIS: pesada, rápida, agressiva, intensa.


Em seguida, Renato anuncia que cantará canções do então novo disco O DESCOBRIMENTO DO BRASIL. Eu fiquei muito feliz, pois este era o meu álbum preferido até então. Continuei cantando emocionado cada verso, diferente de algumas poucas pessoas que só estavam ali para ouvir os clássicos. A banda então tocou VINTE E NOVE, UM DIA PERFEITO e OS ANJOS. Foi um grande momento do show para mim.

Em seguida, pancadaria pura: 1965 (DUAS TRIBOS). Lembro que, quando Renato cantou “Estou do lado do bem com a luz e com os anjos”, os canhões de luz iluminaram todos os fãs.

Seguiu-se um set acústico muito interessante. MONTE CASTELO foi a primeira, deixando todos muito emocionados (inclusive eu). A essa altura, tudo ali parecia um sonho perfeito, e eu torcia para não acordar mais. Essa canção foi tão emocionante que dois jovens entraram no palco após a mesma e tentaram abraçar o Renato, sendo em seguida retirados pelos seguranças. Eu pensei na hora: “meu Deus, o Renato odeia isso, ele vai parar o show! Ele vai embora!”. Que nada! Ele estava tão de bem com a vida, estava tão feliz de estar ali no Rio de Janeiro (ou seja: em casa), diante de tantos fãs, que apenas se desviou e disse: “Uau!”. Antes de tocar a próxima, QUANDO O SOL BATER NA JANELA DO TEU QUARTO, Renato ofereceu a canção “para todos nós e para os dois rapazes que subiram no palco”.



GERAÇÃO COCA-COLA foi tocada em versão acústica, tal como a EMI ouviu a gravação em uma fita cassete em 1984, por intermédio dos Paralamas do Sucesso. Isso foi explicado pelo Renato antes de a mesma ser tocada.

O TEATRO DOS VAMPIROS foi o grande momento do set acústico, em que todo mundo cantou junto. Foi uma das que mais emocionaram o público.

Em seguida, MENINOS E MENINAS foi executada, encerrando com o refrão de O MUNDO ANDA TÃO COMPLICADO: “Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver, o mundo anda tão complicado que hoje eu quero fazer tudo por você, tudo por você, tudo por você...”. um belo final para este momento acústico.




Lembro que, em certo momento do show, Renato foi irônico ao dizer: “Eu adoro ser idolatrado! Me amem!”. Logo ele, que tinha pavor à questão do fanatismo religioso de muitos fãs... Quem conhece o Renato sabe que ele estava brincando. Ele assumiu também: “Eu adoro tocar no Rio (os fãs aplaudiram e assobiaram). Eu gosto de tocar em São Paulo também...”, os fãs, brincando, demonstraram não gostar e Renato lembrou: “São Paulo é legal também. Eu canto ‘acho que gosto de São Paulo’...”

Após o momento acústico, novamente a banda voltou a atacar. E nada melhor do que voltar com um clássico: “Há muito tempo atrás, numa terra distante, longe da civilização, existia um jovem rapaz chamado João de Santo Cristo. (Os presentes foram à loucura: era FAROESTE CABOCLO.) Esta é a sua história. Guarde com atenção estas palavras e lembrem-se: as drogas fazem você virar os seus pais”. Mais uma ironia de Russo. Os fãs cantaram a canção do 1º ao último verso, sem parar. Foi incrível! No final, Renato dançava de forma frenética, contagiante.

PAIS E FILHOS foi o clássico seguinte. Todo mundo cantou junto novamente, principalmente no seu refrão redentor. Interessante ver como as guitarras, ao vivo, ficaram mais pesadas, não só nesta mas também em várias outras canções. Legião sempre foi uma banda de rock, embora muita gente fale que é MPB. Os shows provavam o contrário! Ao final dessa canção esperei pelo cover de STAND BY ME, como foi feito na turnê de AS QUATRO ESTAÇÕES, mas isso não aconteceu.

A próxima foi o grande hino da juventude, uma das mais belas canções do rock nacional, com toda certeza: TEMPO PERDIDO. Fiquei tão emocionado! Não lembro se chorei, mas foi uma das que mais me deixaram arrepiado, já na introdução melancólica e nostálgica.

GIZ foi a próxima, com certeza para acalmar os ânimos exaltados dos fãs com tantos clássicos, mas sem deixar de nos emocionar. Ele explicou que na infância ele gostava de rabiscar mesmo o sol; cantou uma musiquinha infantil (não me lembro como era) para explicar como eles faziam para chamar o sol. E disse: “que bobeira, né, gente?”.




EDUARDO E MONICA reiniciou a sessão “clássicos”, numa versão mais moderna, meio blues, com guitarrinha, teclados... Eu já tinha lido numa entrevista que o Renato tivera problemas nos anos 80, quando tocava essa canção. O motivo? Os presentes no show queriam que a banda tocasse a mesma exatamente como era a versão no disco. E o Renato ficava nervoso com isso: “as pessoas querem que eu toque ‘Eduardo e Monica’ exatamente como está no disco isso não é rock’n roll; eu toco como eu quero!”, foi mais ou menos o seu comentário na época. Já no show em que eu fui, tudo ocorreu muito bem, sem problemas: as pessoas cantavam juntas, pulavam, dançavam... Ali, naquele momento, eu presenciava um momento de amor e devoção dos fãs para com a banda e vice-versa.

Renato anunciou: “Eu tô com vontade de tocar uma balada!” e a banda tocou a canção de (des)amor mais linda e melancólica do nosso rock: a reflexiva VENTO NO LITORAL. Posso dizer, com certeza absoluta que esta, ao lado de FAROESTE CABOCLO, foram as duas canções mais ovacionadas pelos fãs. Esta balada foi tão emocionante que pude perceber que muitos namorados se abraçavam mais, criando um clima de ternura e amor.

HÁ TEMPOS animou os fãs, numa versão um pouco mais rápida do que a original. Em seguida veio “ÍNDIOS” em que Renato perguntou: “ A gente sabe tocar “ÍNDIOS” com a banda?”. Todo mundo foi ao delírio. Aí ele brincou, citando a Blitz. Errou a letra, mandou parar e perguntou à banda como era a 2ª estrofe da banda, induzindo os fãs ao erro: puxou de forma errada “Esquecer o que ninguém consegue entender...” e disse que tínhamos errado. Eu fiquei feliz, pois eu disse comigo mesmo “Está errado!” e não cantei. Muitos foram na dele e se deram mal! Quando ele finalmente puxou certo, todo mundo cantou junto e a canção ganhou força a cada estrofe. No final, Dado andou de um lado para o outro com sua guitarra (dançando?), parecia que iria cair. Foi bem legal. Para encerrar a canção, Renato emendou BLUE SUEDE SHOES, do Elvis.

Quando eu ainda recuperava o fôlego, ainda em estado de transe, Renato anunciou: PERFEIÇÃO. Posso dizer que era uma das canções que eu mais estava esperando. E foi demais: a guitarra pesada e distorcida de Dado, a bateria vibrante e meio tribal de Bonfá, a letra declamada de Russo. Quando a canção entrou na última parte (“Venha, meu coração está com pressa...”), os fãs criaram um clima religioso erguendo os braços fervorosamente com se fosse uma oração. Renato cravou mais um cover: LITHIUM, do Nirvana. Pensando nesse momento hoje, vejo que nada era feito isoladamente: a letra começava em forma de protesto, ironia e descrença absoluta diante da nossa realidade, terminava com um hino de esperança para o futuro e tinha, ao vivo, trechos da já citada LITHIUM, em que Kurt Cobain tentava manter a sanidade em meio ao caos de sua vida pública e privada. Havia paralelos interessantes com Renato, que havia vencido uma batalha pessoal contra as drogas e o álcool.

A banda deixou o palco e eu pensei: “Eles têm que voltar!”. Ansiedade e espera. O público gritava “É Legião! É Legião!” e “Uh, uh! É Legião!”. Então, a banda correspondeu às nossas expectativas retornando ao palco. Renato brincou dizendo que o show iria acabar e ameaçou sair novamente.

Atendendo a pedidos, segundo Russo, a banda tocou uma versão bonita e mais curta de ANDREA DORIA. Na verdade, eu estava ouvindo pedidos para FÁBRICA. “Toca FÁBRICA!”, era o que eu ouvi com uma certa frequência.

VAMOS FAZER UM FILME foi mais uma canção do último disco; esta é uma das minhas preferidas e eu queria muito ouvi-la ao vivo! Ficou linda: mais rock, a guitarra ficou mais estridente e, no fim, Renato cantou “eu te amo” à capela, perguntando aos presentes: “Como é que se diz eu te amo?”. Foi perfeito.

Enfim, a última canção exigia uma reflexão diante do cenário brasileiro: QUE PAÍS É ESTE, pesada, agressiva, repleta de ironia. Renato cantou CAJUÍNA, de Caetano; brincou com a ridícula PINTINHO AMARELINHO, do programa trash do Gugu Liberato. Era uma forma de Renato criticar o sensacionalismo e a mediocridade da televisão brasileira. Por isso, Renato cantou essa música e inventou as vídeo-chineladas do Chinelão (mera coincidência com as vídeo-cassetadas do Faustão?), para mostrar como a violência e a futilidade dos programas de auditório são os grandes atrativos da mídia. “Vamos pegar aquela ali, ó! Cuidado aí senão vai cair na porrada!”, interpretava Renato com toda a sua ironia. AQUELE ABRAÇO, sucesso do Gilberto Gil, também apareceu no meio da canção. Por fim, Renato, enquanto a banda tocava, conversava com os fãs dizendo que, para mudar o país, era preciso primeiro mudar a nós mesmos, “ajuda pra caramba!”. E era verdade: não adianta falar em futuro do país se fomentamos a violência e alimentamos tudo o que é grotesco e ao mesmo tempo corriqueiro na sociedade. Era preciso uma mudança de consciência e de atitude no dia a dia. Na última estrofe, Renato pediu para a banda parar de tocar e disse: “Agora, são vocês que vão pra casa, que vão pensar como o país vai ficar rico sem precisar matar ninguém”.

Era o fim do show – que era muito mais que um mero show. Renato havia dito numa entrevista naquela semana para o jornal O Globo: “Quando as pessoas cantam as nossas canções é como uma celebração. Nossos shows não são somente entretenimento. Cantamos músicas que marcam e, de repente, são todas tribais. A gente é a banda de rock mais rock do Brasil”. Isso sintetiza a importância da Legião não apenas para a música brasileira, mas para o pensamento e a ideologia jovem, tão desgastados pela pobreza do rock nacional atual.

A banda saiu de cena e retornou com vários buquês de rosas, que foram jogadas para o público. Infelizmente não peguei nenhuma, mas o mais importante eu havia finalmente presenciado: a magia de ver a Legião no palco. Um momento inesquecível!

Aquele viria a ser o meu primeiro e último show da Legião Urbana. O penúltimo no Rio (uma semana depois, na sexta, dia 14/10/1994, a pedidos da direção da casa, como o próprio Renato havia dito no show em que eu fui, haveria mais uma apresentação) e o antepenúltimo da história da banda (o último seria em Santos, em janeiro de 1995).

Posso dizer que nunca mais verei um show como aquele. Fui para casa com as imagens do show registradas em minha mente e em meu coração. Na volta do ônibus, a lembrança de Renato, Dado e Bonfá no palco me deixavam feliz e realizado. Fiquei ainda em estado de êxtase por mais alguns dias e continuei não sentindo o gosto dos alimentos. Só voltei ao normal uma semana depois.

Hoje vejo que realmente “o pra sempre sempre acaba”, mas os bons momentos sempre serão lembrados com carinho. A minha história de amor com a Legião ratifica essa afirmação.

URBANA LEGIO OMNIA VINCIT.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Show da Legiao Urbana no Rio - eu fui! (09/10/1994)

Nunca me esquecerei do dia em que fui a um show da Legião Urbana...

A imagem de Renato / Dado / Bonfá na minha frente tocando e cantando suas inesquecíveis canções ficará para sempre registrada em minha mente e em meu coração.

Digam o que quiserem sobre a Legião: que são músicos limitados, que o Renato esquecia algumas letras, que as apresentações eram puramente histeria coletiva beirando ao fanatismo... Não importa. Nada se compara a um show da Legião. Bono e seu U2 são incríveis ao vivo? Sim, são. Mas não são a Legião!

Como disse Dado certa vez, “show da Legião, sempre uma nova emoção”. É a pura verdade!

Em algum dia de setembro de 1994 vejo na TV o comercial do show que aconteceria no Rio nos dias 08 e 09 de outubro daquele ano.

“Nossa! A Legião vai tocar no Rio!”, pensei. Era a minha chance de assistir finalmente ao show da minha banda do coração. Eu já tinha todos os discos, legionário convicto, só me faltava assistir a um show da banda.

Eu tinha 17 anos e minha mãe foi comprar o ingresso para mim e para um colega que iria comigo. Quando cheguei do colégio, fiquei decepcionado por saber que nos postos de venda não havia mais ingressos. Tudo esgotado!

Fui falar com meu colega e resolvemos ir à Barra da Tijuca, shopping Via Parque, onde ficava a antiga casa de shows Metropolitan (local do show). Lá fomos nós. Eu estava ansioso demais, não conseguia comer nada, no ônibus só ficava pensando na possibilidade de encontrar os ingressos.

Chegamos lá e havia uma pequena fila. Algumas pessoas estavam comprando vários ingressos. Na nossa vez, pedimos dois ingressos e a atendente disse: “acabou...” e eu pensei “Meu Deus!..”; mas ela continuou: “Só tem para domingo, sábado está esgotado”. Que alívio!

Fomos para casa felizes e ansiosos. Em casa peguei os encartes dos discos e fiquei lendo as letras para poder cantar todas na ponta da língua junto com o Renato. Isso era uma sexta-feira.

No sábado percebi que não conseguia sentir o gosto da comida. Disse para minha mãe que estava sem sal, mas ela disse que era engano meu. Coloquei mais sal: nada – não sentia gosto da comida. Percebi que estava sofrendo de ansiedade e perdi o apetite e não sentia o gosto dos alimentos. Estava entrando em transe, ficava todo arrepiado só de imaginar o que viria.

No domingo a mesma coisa: não sentia gosto de nada. Fiquei aguardando chegar a hora, mas o tempo não passava! Meu time do coração (Fluminense) iria jogar naquele dia contra o Vasco, mas eu não me importava: o grande jogo era no Metropolitan! Depois fui saber que o jogo foi 0 x 0 (lembro que um colega sugeriu que, em vez de eu comprar ingresso para ver a Legião, eu poderia ir ver o Flu no Maracanã). Sem comentários...

Meu colega e eu fomos de ônibus, que estava lotado. O trânsito estava meio complicado, mas chegamos lá sem grandes transtornos!

Escolhi um lugar legal para ficar, bem de frente, a alguns metros do palco. Havia muitos jovens com camisas da Legião, mas também de outra bandas como Ramones, Iron Maiden, Sepultura. Todas as tribos queriam ver a Legião no palco, queriam reverenciar a grande banda de rock do Brasil – “A banda de rock mais rock do Brasil”, como dissera Renato referindo-se à própria Legião numa entrevista para o jornal O Globo naquela semana.

As horas passavam e o show não começava... Fiquei cada vez mais ansioso!

Enfim, o local começou a ficar escuro, as pessoas começavam a gritar “É Legião! É Legião!” e eu pensei: “vai começar!”

O sistema de som apresentou: “Metropolitan apresenta LEGIÃO URBANA!!!”

Todo mundo começou a gritar, parecia que o local estava mais cheio ainda (pois todo mundo começou a se aproximar mais e mais, quase não dava para se mexer).

Como o Renato era fã de música clássica, a introdução teve início com um instrumental que não sei o nome, mas já era emocionante, deu um clima legal!

Quando acabou, a cortina se abriu e os músicos entraram no palco, indo para seus postos. Renato surgiu logo em seguida segurando algumas flores nas mãos e, num sorriso, disse: “Boa noite! Vocês estão prontos?”

Precisava responder? Mas eu murmurei, rindo de felicidade: "É claro que estou!"

A partir dali, nada mais parecia real. Foi uma experiência mística, indescritível, única!

Sei que partes desse show passaram na Bandeirantes e mais tarde um disco duplo com o título “Como é que se diz eu te amo” foi lançado pela EMI, mas mesmo assim nada se compara com o que vivi naquele momento, naquelas pouco mais de duas horas de apresentação.

Ainda hoje, quando me lembro desse dia, eu fico arrepiado e me vem à mente imagens bem nítidas da apresentação legionária.

Na próxima postagem tentarei ser o mais fiel possível para descrever esse show memorável...

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Dois, segundo disco da Legião Urbana – um clássico


Passada a empolgação gerada pelo sucesso do 1º disco, a Legião Urbana entrou em estúdio em 1986 para lançar o 2º disco da sua carreira. A idéia inicial era a de lançar um disco duplo, com o pomposo título de “Mitologia e Intuição”, mas a idéia foi abortada pela gravadora EMI. Afinal, a Legião ainda não estava no 1º escalão do cast da gravadora. Assim, o disco foi simplesmente batizado com o singelo título “Dois”, lançado em julho de 1986. Passada a energia adolescente e primária do 1º LP, “Dois” foi responsável por trazer uma produção mais elaborada, mais pensada. Enquanto o 1º disco era mais explosivo, este trazia temas mais espirituais, emotivos, confessionais. Ainda havia dois punks básicos: a irônica e agressiva Metrópole (denunciando o sensacionalismo mórbido e a indiferença nas grandes cidades diante da violência e da desgraça alheia) e Fábrica (com uma temática social pedindo dignidade, justiça, compaixão e trabalho sem exploração). Mas o som soava diferente na maior parte do disco: um rock básico costurado por nuances pop e folk (uma das grandes paixões do Renato – Beatles, Bob Dylan...).


O disco abre com Daniel na Cova dos Leões, com um título bíblico e letra que Renato considerava explicitamente homossexual. “Essa música fala de sexo oral”, diria mais tarde. Acrilic on Canvas é uma balada sofisticada, ideal para os mais sentimentais, que trata sobre saudade após ao fim de um relacionamento. Eduardo e Mônica é a 1ª historinha a aparecer num disco da Legião, com personagens, começo, meio e fim, mostrando o amor na vida de dois jovens totalmente diferentes um do outro. Bem mais tarde Renato chegou a dizer que a Mônica da história era uma amiga sua de Brasília, Leonice Coimbra; já Eduardo era ele mesmo, “só que menos bobo”. Tempo Perdido foi descrita pelo antropólogo Hermano Vianna – num texto que ele escreveu para a caixa lançada em 1995 com os cds remasterizados da banda – como “um dos momentos mais lindamente melancólicos da história da música pop”. Essa canção foi a música de trabalho do disco, considerada um hino para a juventude com seus belos versos e instrumental que foi acusado de copiar o som da banda inglesa The Smiths, grande ícone dos anos 80, que Renato era fã. O clipe dessa canção trazia fotos de jovens flagrados pouco antes da fama – gente como John Lennon, Janis Joplin, Jimi Hendrix entre outros ídolos do Renato.

“Índios” (assim mesmo, entre aspas) teve a letra escrita pelo Renato no estúdio, quando o disco já estava no fim. Com tantas canções belas, Dois foi finalmente lançado em julho de 1986. Como a idéia original de ser um disco duplo foi abortada, muita coisa ficou de fora, entre eles uma versão roqueira de Juízo Final, samba de Nelson Cavaquinho. Algumas músicas antigas dos tempos de Brasília também ficaram de fora. Segundo Bonfá, “as músicas eram lindas, mas foi uma fase difícil de criação, era muito experimental”. Assim, a banda foi conquistando cada vez mais fãs em todo o Brasil, ganhando inclusive prêmios na revista Bizz, e Renato Russo se destacou, ao lado de Cazuza e Arnaldo Antunes, como o grande letrista da sua geração.

Dois se tornou o grande clássico da banda, a obra-prima, e hoje já deve ultrapassar a marca de 2 milhões de cópias vendidas.

terça-feira, 14 de abril de 2009

A formação da Legião Urbana e o primeiro LP

Cansado da carreira-solo e com a nova possibilidade que o Aborto Elétrico tinha aberto para as novas bandas que surgiam em Brasília, Renato – em 82 – ficou poucos meses apresentando-se como O Trovador Solitário.

Mas ele queria mesmo era ter uma banda de rock. Por isso, convidou o baterista Marcelo Bonfá para formar com ele a Legião Urbana, com a idéia de um núcleo de baixo-bateria. Depois, juntaram-se a eles o guitarrista Eduardo Paraná e o tecladista Paulo Paulista.


O 1º show da banda aconteceu no dia 05/09/1982 na cidade mineira de Patos de Minas, junto com a banda Plebe Rude. Logo após Paraná (ele tocava bem demais e solava sem parar, e Renato e Bonfá eram contra, pois queriam algo mais simples – o espírito despojado e direto do punk ainda estava imbuído neles) e Paulo Paulista deixam a banda. Ico Ouro-Preto (irmão do Dinho do Capital Inicial) assume a guitarra. Às vésperas de um festival na Associação Brasiliense de Odontologia, que reuniria as grandes bandas locais (Legião, Capital, Plebe Rude e XXX), Ico deixa a banda em março de 83 (reza a lenda que ele morria de medo do palco, de tocar em show, e já havia feito isso com o Aborto Elétrico).

A banda procura às pressas um novo guitarrista e encontrou um jovem tímido e diabético que – mesmo sem saber tocar direito – encaixava-se bem na estética do punk: Dado Villa-Lobos. Ele aprendeu algumas canções em poucas semanas e, em abril, a Legião foi a zebra do festival. Isso causou um ânimo novo à banda, e os três passaram a ensaiar juntos e algo estava acontecendo entre aqueles três jovens: eles se identificavam e se entendiam muito bem. Havia uma química muito forte entre os três. Naquele mesmo ano resolveram deixar Brasília e fizeram apresentações em boates em São Paulo e Rio de janeiro.



A 1ª apresentação no Rio aconteceu no dia 23/07/83 no Circo Voador. Naquele ano eles gravaram a 1ª fita demo e havia a expectativa de gravar um disco na gravadora Emi-Odeon com a ajuda dos Paralamas, que fazia parte da gravadora. Em 1984 Renato (já tendo assumido o sobrenome artístico Russo) corta os pulsos (para chamar a atenção de um rapaz por quem se apaixonara; outros especulam que foi porque ele estava com medo de não conseguir o contrato p/ gravar o 1º Lp da banda com a gravadora Emi). Mas o problema trouxe uma solução prática: como ele havia perdido alguns movimentos por ter cortado os pulsos, era preciso chamar alguém para substituí-lo no baixo. Bonfá chama então Renato Rocha (conhecido como Negrete e, mais tarde, por gostar de fazendas, como Billy) para o baixo, deixando Renato Russo livre para cantar e compor suas letras. Finalmente naquele ano a banda entra em estúdio p/ gravar seu 1º Lp, que seria batizado apenas de Legião Urbana (embora a idéia inicial era batizá-lo com o nome de Revoluções por Minuto).



O Lp foi lançado em janeiro de 84, e ficou seis meses hibernando, sem efeito. Depois, as canções começaram a tomar as rádios, uma após a outra (Será, Ainda é Cedo, Geração Coca-Cola...) e o disco vendeu 100 mil cópias, o que era impressionante para a época. Sobre o disco, Renato disse certa vez: “Nesse 1º Lp fomos mais agressivos. A gente precisava abrir uma porta, então tinha que bater com força”. O disco fala sobre alienação, dramas amorosos, juventude, política. A influência é de grupos pós-punks, como Joy Division, Cure, Public Image Ltda (PIL), Gang of Four... O disco tinha até um reggae (O Reggae), com uma letra que denunciava a falência da educação no Brasil.

Soldados é considerada a 1ª canção da Legião com uma sensibilidade gay: segundo Renato, era a história de dois meninos que brincam de soldados quando as meninas estão longe. Por Enquanto encerra o disco de forma reflexiva, sem guitarras, apenas com sintetizadores. Sobre a canção, Renato falou: “Nas gravações do disco tinha aquela tensão de correr: morar em Brasília e gravar no Rio. Por Enquanto foi feita em cima disso”. Isso explica o último verso: “Estamos indo de volta pra casa”.

Desse disco saiu o 1º clipe da banda, com a música Será: simples e despojado, como manda o som da banda. A Legião conseguiu provar que tinha talento e não havia sido contratada apenas por ser amiga dos Paralamas (o Renato dizia que os Paralamas eram padrinhos da Legião). Vários shows foram feitos, criando-se, assim, muita expectativa em cima do 2º Lp da banda, que seria gravado em 86.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Punk: A origem da Legião Urbana

Sei que muita gente já conhece a história da Legião Urbana e já está cansado de ler sobre isso, mas sei também que muitos fãs estão começando a ouvir agora e querem conhecer um pouco mais sobre a banda. Por isso, mesmo não sendo essa a proposta do meu blog, vou colocar algumas curiosidades e informações sobre a Legião. Um abraço e força sempre!

A ORIGEM DA LEGIÃO VEM DO MOVIMENTO PUNK

A Legião nunca teria existido se Renato Manfredini Junior (nascido em 27/03/1960 no Rio de Janeiro) não tivesse conhecido o punk rock. Fã de Beatles, Elvis Presley, Bob Dylan, Pink Floyd, Led Zeppelin e diversas bandas de rock progressivo, Renato, que morava em Brasília desde os 13 anos, conheceu o punk na adolescência e ficou fascinado, pois era tudo o que ele queria: o som era simples e qualquer um poderia ter uma banda de rock; assim, ele não precisaria mais ter aulas de música. A ideologia era a “do it yourself” (faça você mesmo). Assim, passou a ouvir muito punk: Ramones, Clash, Damned e, principalmente, Sex Pistols. Em 1978, Renato se vestia de punk (calças rasgadas, cabelo pintado, alfinetes no rosto...) e conheceu um punk chamado André Pretorius, fã de Sex Pistols. Desse encontro surgiu a 1ª banda de Brasília, que seria a mãe de todas as outras bandas: o Aborto Elétrico. Renato (que ainda não assinava Russo) no baixo (no início ele tinha vergonha de cantar), André Pretorius na guitarra e Fê Lemos (hoje baterista do Capital Inicial) na bateria.


O primeiro show, depois de muitos ensaios, aconteceu num bar chamado “Só Cana”, e chamou a atenção dos jovens pelo barulho, pela energia e pela rebeldia adolescente. A banda começou a crescer, daí Pretorius foi para a África do Sul servir ao exército desse país (que estava envolvido no Apartheid). Entra Flávio Lemos (irmão do Fê, hoje baixista do Capital), Renato lhe ensina a tocar baixo e passa para a guitarra. Era aproximadamente 1981 e Renato passa então a trabalhar com letras e usar a sua voz. Ico Ouro Preto (guitarrista, irmão de Dinho) entra na banda por um curto período de tempo. Em novembro daquele ano realiza-se o show na sala Funarte e, em 1982, Renato sai da banda por desentendimentos pessoais e musicais com Fê e passa a fazer apresentações solo, intitulando-se o Trovador Solitário, apresentando canções ao violão, como Eduardo e Mônica, Faroeste Caboclo, entre outras. Flávio, Fê e Ico mantêm o Aborto por um certo tempo e, em maio, num show, Ico desaparece e Fê, desesperado, chama o Renato para tocar. Apesar do sucesso daquele show (que já incluía em seu repertório sucessos como Fátima, Tédio (com um T bem grande pra você), Que País é Este, Conexão Amazônica, Veraneio Vascaína, entre outros), aquele foi o último da história do Aborto. Renato continuou se apresentando solo, mas depois resolveu: ele queria mesmo era ter uma banda de Rock'n Roll!

Algumas frases do poeta


Renato Russo sempre falava muito nas entrevistas que concedia. Temas como sexo, drogas, rock'n roll, política, relacionamentos, literatura e música eram alguns dos temas frequentes. É interessante ver os pontos de vista do poeta e a sua capacidade de dar opiniões sobre o que pensava. Assim, podemos perceber também que ele nunca teve medo de se expor e de ser sincero até mesmo nos assuntos mais polêmicos. Por isso resolvi selecionar trechos de algumas entrevistas, que nos permitem perceber que a sua ideologia e seu modo de ver o mundo acabava entrando inevitavelmente nas suas letras.


"Na adolescência você quer ser aceito. Foi uma época muito complicada para mim. Eu sabia que era sedutor e, como todo mundo, também aprendi os códigos sociais para não me machucar." (1995)

"Bebo porque tem garoto de 15 anos sendo morto pela polícia e menininhas sendo estupradas." (1993)

"Depois que me apaixonei de verdade, e não deu muito certo, então eu não consigo mais... Eu fico esperando, putz, eu quero sentir aquilo de novo, mas aí, se começa, se o coração bate mais rápido: "Ah, eu não sei se quero isso, não". Eu acreditei durante muito tempo em amor romântico. Hoje em dia eu não acredito em amor romântico, não. Eu acredito em respeito e amizade. De repente, sexo e tudo. Ou então expressão física. Mas é assim: respeito e amizade. Porque paixão, essa coisa de amor romântico mesmo, acho que traz muito sofrimento e sempre acaba. Você sofre, você fica pensando na pessoa, você não funciona direito. Ao mesmo tempo em que voce descobre muitas coisas boas em você - não sei, pelo menos comigo acontece isso - eu descubro sempre as invejas, certos ciúmes, uma certa possessividade, no meu caso, muito machista. E isso incomoda. Eu sou ciumento, possessivo, italianão. Eu acho que o amor verdadeiro não passa por isso, não." (1993)

"Sou anarquista e individualista. Tenho uma visão poética, mas não me considero poeta. Procuro o belo." (1995)

"Não queremos ser diferentes, e sim que todo mundo tenha o direito de ser como é. Eu nao preciso me sentir mal porque não sou igual ao garoto que está no anúncio do iogurte. É você ser sexy, charmoso, com uma certa plasticidade corpórea. Cria-se uma geração de clones. Estes são os anos 90." (1992)

"O Brasil é um país que nao é uma nação, onde a vítima é ré, e não se respeita mulher, negro e homossexual." (1987)

"Recado para o público: amem a Legião Urbana. Estamos do lado de vocês." (1993)

"Na verdade, a Legião Urbana hoje em dia são os fãs. Nós somos apenas o veículo." (1994)

"O que a gente sempre falou foi: 'Seja sua própria pessoa'. E o que eu vejo, em alguns fãs, é a anulação da própria pessoa por causa da Legião Urbana. E eu acho isso péssimo." (1995)
"Minha relação com meu filho é maravilhosa. Mas sou bem durão, ele me respeita. O mais importante é ele saber que meu amor não é condicional, não depende de nada que ele faça." (1990)

"Não tenho como educar o Giuliano agora. De jeito nenhum. Nossa relação é ótima, ele está com 6 anos e é esperto. Quero que venha ficar comigo, um dia. Ele fica com meus pais, em Brasília." (1995)

"Eu entro no palco com flores porque eu gosto. Faço isso desde que a gente fez um show no Rio, no dia em que o Cazuza morreu. Eu acho que é uma vibração legal, porque tem uma coisa que acalma a galera. Então, em shows pequenos, eu nunca faço isso. Mas, num show para 50 mil pessoas, com quanto mais calma você puder passar o que você tem a dizer, melhor." (1994)

"Eu escrevi em 'A montanha mágica': 'sou meu próprio líder, ando em círculos". O que eu quis dizer com isso? Não sei exatamente. Quero que as pessoas me digam o que entenderam. Acho que existem várias leituras para este disco e para as palavras que estão nele. São palavras simples, é um vocabulário básico, mas há coisas para descobrir." (1991)

"A violência me preocupa porque tenho família, amigos... Às vezes, nem me preocupo tanto comigo, mas há pessoas de que gosto e não desejo vê-las sofrer." (1991)

"Quando vejo esses corruptos mentindo c/ a maior desfaçatez, minha vontade é matar todos eles. Mas eu sei que isso não adiantaria nada." (1993)

"A parte do corpo que eu mais gosto é meu cérebro. E também adoro minhas mãos." (1994)

Algumas curiosidades...


No dia em que o poeta partiu a Central Globo de jornalismo havia decidido fazer uma cobertura sobre o assunto que iria ocupar praticamente metade do Jornal Nacional. Na época, Lilian Wite Fibe achou um absurdo. Reza a lenda que Willian Bonner, para mostrar a importância do Renato Russo na música brasileira, recitou todos os versos de Faroeste Caboclo. Na verdade, o que aconteceu foi que presentes, na reuniao que decidiria o conteúdo do jornal, citaram diversas músicas de sucesso p/ convencer Lilian sobre o Renato. E Bonner, brincando, ameaçou recitar Faroeste Caboclo do início ao fim se ela quisesse, mas, diante de ameaça coletiva de demissão, ele não fez isso. A lenda é bem mais charmosa, né?

Aborto Elétrico, segundo Renato, é porque uma menina grávida apanhou com um cassetete elétrico que a polícia usava contra as pessoas na época da ditadura; a menina teria perdido abortado naquele instante. Segundo Fê Lemos explicou na Bizz de 1997, essa história é apenas uma lenda.

Renato Russo (mito) nasceu Renato Manfredini Junior às 4h de 27 de março de 1960, na Clínica Santa Lúcia, Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro. Morou comn a família em Forrest Hill, distrito de Queens, Nova York, entre os anos 1967/1969, retornando para a Rua Maraú na Ilha do Governador (RJ). Em 1973 a família Manfredini se muda p/ a SQS 303, em Brasília. Após o lançamento do 1º disco da Legiao em janeiro de 1985, Renato retorna para a casa da Ilha do Governador em agosto, morando com os avós.

O show mais trágico da Legião ocorreu em 18/06/1988 na volta da banda a Brasília - que tinha tudo para ser uma volta triunfal. Porém, o show teve um atraso inexplicável e a banda entrou no palco numa noite fria. Mas quente nos ânimos: um maluco passa pela segurança e agarra Russo pelo pescoço, após bombas e objetos caem no palco. O Renato dá um esporro no público e até nos seguranças, que batiam sem piedade nos fãs. Diante do controle da situação perdido, a banda abandona o palco antes da hora e não volta para o esperado bis. Resultado: tem-se início um "faroeste" no estádio Mané Garrincha, uma confusão. Resultado: 60 pessoas detidas, 385 atendimentos médicos e 64 ônibus depredados, o gramado do estádio foi queimado, a banda foi acusada (em especial o Renato) de incitar o público à violência.
Sobre o incidente, Renato comentou: "Eu não sei o que aconteceu em Brasilia. Mas acho que o que houve foi uma espécie de catarse coletiva, levada p/ um lado errado. As emoções das pessoas vieram à tona, foi uma coisa muito visceral. No caso da banda, a gente entrou inocentemente, a gente realmente achava que ia ser uma festa, sem pensar que seria perigoso juntar 50 mil pessoas em Brasília. A gente se esqueceu do badernaço que teve em Brasília, que foi o mais violento de todos no país. O que aconteceu foi o seguinte: perdeu-se o controle. Todos têm uma parcela de culpa. Nossa parcela foi a de ter feito o show. Acho injusto as pessoas dizerem que o que aconteceu foi porque a banda - principalmente eu - incitou a platéia. Porque, agora, é sabido que os atos de violência já estavam presentes antes mesmo de se pensar em atraso do show. Às nove e meia, horário marcado, já tinha gente tacando morteiro nas outras pessoas, gente com as pernas fraturadas, com a clavícula quebrada."
Interessante é que antes do fatídico show Dado saudou a imprensa dessa forma: "Estamos aqui nessa cidade horrível... Divirtam-se... enquanto podem." Renato Russo, na noite anterior, no hotel, andava pelos corredores procurando uma Bíblia. Bonfá, mais tarde, comentou que todos sentiam uma vibração estranha no ar.

Fontes:
- Livros "O Trovador Solitário", de Arthur Dapieve e "Renato Russo de A a Z".
- Arquivo Pessoal Legião Urbana – Paulo Avila.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Conhecimentos legionários (entretenimento)

Certo dia eu estava revendo e reorganizando o meu arquivo de materiais da Legião e vi alguns fanzines numa pasta. Num deles (novembro de 1999), havia uma coluna “Teste seus conhecimentos” sobre a Legião. Fiquei satisfeito ao ver que na época eu tinha acertado todas as questões. Pois bem, deixo aqui, como forma de descontração, tal teste. É só uma brincadeira, ninguém aqui quer ser doutor em Legião, certo? Mas vale a pena fazer o teste! Vamos lá? Ah, não confira o resultado antes de responder!

Teste se você sabe tudo sobre a Legião Urbana:

1- Onde aconteceu o primeiro show da Legião?
a) Circo Voador (RJ)
b) Patos de Minas (MG)
c) Teatro Galpão (DF)

2- A Legião já teve um tecladista. Qual é o nome dele?
a) Paulo Paulista
b) Fê Lemos
c) Eduardo Paraná

3- O disco “Dois” era para ter sido um álbum duplo. Qual seria o nome deste álbum?
a) Flores da Rússia
b) Mitologia e Intuição
c) País das Maravilhas

4- Responda sem pensar muito: Quem produziu os últimos cds de estúdio, “A Tempestade ou O Livro dos Dias” e “Uma Outra Estação”?
a) Mayrton Bahia
b) Jorge Davidson
c) Dado Villa-Lobos e Legião Urbana

5- “Urbana Legio Omnia Vincit”. Em quem foi inspirada essa frase?
a) Filósofo francês Jean-Jacques Rousseau
b) Estadista romano Júlio César
c) Filósofo inglês Bertrand Russel

6- Um dos hobbies de Renato Russo era:
a) Astrologia
b) Teatro
c) Fotografia

Confira o resultado:
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1-b; 2-a; 3-b; 4-c; 5-b; 6-a

De 0 a 2 acertos – Você precisa conhecer melhor a história da banda.
De 3 ou 4 acertos – Você é bem informado, descubra mais sobre a história da banda.
De 5 ou 6 acertos – Parabéns! Você realmente sabe tudo sobre a Legião Urbana, assim, propague a sua história para gerações futuras.

Nós somos a Legião Urbana


Renato Russo - nosso eterno poeta - disse em 94 que a Legião eram os fãs; ele, Dado e Bonfá eram apenas o veículo. Ele também disse algo parecido no show do Rio em 1994, que pode ser conferido no cd "Como é que se diz eu te amo", antes de começar Perfeição. Numa entrevista da Bizz em 1995 ele disse que a Legião só existia hoje em dia por causa dos fãs. Isso legitima o nosso trabalho e a nossa missão de fãs: levar o nome e as canções legionárias para a posteridade, como em fãs-clubes, grupos e comunidades virtuais. Cada um de nós é responsável por levar o nome da Legião adiante, para as futuras gerações, e não deixar a mensagem se perder no tempo.

Afinal, como bem disse o Renato, nós somos a Legião Urbana!!!

quinta-feira, 12 de março de 2009

Tributos?!? Para quem? Para quê?

Eu, pessoalmente, nunca fui fã de homenagens e tributos à Legião. Podem me chamar de radical se quiserem! Mas a verdade é que vira uma bagunça e todo mundo fica querendo se aproveitar da obra da Legião... O Capital Inicial, por exemplo, tem realmente que parar com essa coisa de homenagear a Legião toda hora, assim como muitas bandas por aí. Chega!

Como bem disse o Bonfá certa vez, o maior tributo está aí, com os discos lançados e sempre lembrados. Se continuarmos ouvindo Legião e fizermos com que outras pessoas conheçam a banda e suas canções, estaremos eternizando-a para as futuras gerações. Não precisa de discos tributo por aí afora, indiscriminadamente. A Legião é coisa séria. O Renato não gostaria dessas coisas.

Eu gostei do CD "O Último Solo", mas pensemos com carinho: o Renato aprovaria aquele lançamento? Ele era um artista super cuidadoso com a sua obra. É claro que os discos da Legião lançados postumamente (acústico, ao vivo...) tem um valor documental e eu adoro que seja assim, mas desde que sejam avaliados e produzidos pelo Dado e Bonfá, que são quem mais entendem de Legião. E não podemos nos esquecer de que no tributo feito ano passado ao Renato no Multishow (que virou CD e DVD em 2006, com o título “Uma Celebração”) eles não liberaram as canções que eles assinam a composição, por isso só rolaram aquelas que só o Renato compôs. Nem a Plebe Rude, banda amiga de Brasília, teve autorização do Bonfá para tocar Soldados (composição do Bonfá com o Renato).

O negócio agora é deixarmos que as canções sobrevivam por si mesmas, sem cópias (muitas vezes mal feitas). Nós, legionários, somos responsáveis para que isso aconteça.

quarta-feira, 11 de março de 2009

RENATO RUSSO & CAZUZA - A poesia nunca morre

Como sabemos, Cazuza se foi no dia 07 de julho de 1990. E há nele toda uma trajetória que se cruza com a do nosso Renato Russo e todo um legado de lirismo e força que sempre irá ficar marcado em nossos corações.

Segundo Lucinha Araújo, “naquela tarde de 6ª feira, ele (Ezequiel Neves) saiu mais cedo e contou depois que Cazuza pareceu estranho e sereno. Ouvia pouco e quase não dizia nada. Era como se meu filho dissesse ‘deixa pra lá’. Cazuza tinha dito a Zeca que queria assistir ao show da Legião Urbana no dia seguinte. Renato Russo, no dia 07 de julho, dia da morte e sepultamento de Cazuza, dedicou o show a ele”.


À noite, no Jockey Club Arena do Rio de Janeiro, Renato entrou no palco com a sua banda e disse: “Eu quero falar algumas coisas aqui. Eu vou falar de mim. Eu tenho mais ou menos 30 anos, sou do signo de Áries, eu nasci no Rio de Janeiro, eu gosto da Billie Holliday e dos Roling Stones, eu gosto de beber pra caramba de vez em quando, também gosto de milkshake. Eu gosto de meninas, mas eu também gosto de meninos. Todo mundo diz que eu sou meio louco. Eu sou cantor numa banda de rock’n roll. Eu sou letrista e algumas pessoas dizem que eu sou poeta. Agora eu vou falar de um carinha. Ele tem 30 anos, ele é do signo de Áries, ele nasceu no Rio de Janeiro, ele gosta da Billie Holliday e dos Rolling Stones, ele é meio louco, ele gosta de beber pra caramba. Ele é cantor numa banda de rock, ele é letrista, e eu digo: ele é poeta. Todo mundo da Legião gostaria de dedicar esse show ao Cazuza”.


Certa vez, Cazuza disse: “(...) eu tenho orgulho de fazer parte de uma geração que tem o Renato Russo, o Arnaldo Antunes, o Lobão, uma geração que acabou com essa história de que rock é bobagem. O rock já não é uma coisa da qual se possa debochar... A gente está com uma força de palavras, as pessoas estão ouvindo o que o Renato Russo fala, o que o Lobão fala... Por mais que cada um tenha caminhos loucos, eles estão falando”.

Em 1995, Renato Russo disse: “As pessoas vem, as pessoas vão... e o Cazuza foi e faz muita falta. Eu, sinceramente, sinto muito a falta dele, porque ele era uma espécie de ponto de referência, sabe? Nós temos o mesmo signo, a mesma idade, gostamos de Billie Holliday e de milkshake... Mas ele se foi... só que eu acho que a poesia dele fica para sempre... Eu me lembro que no lançamento de Que País é Este, em 87, o cazuza foi lá, já bem doente. Ele me disse uma vez que foi aquele negócio de ‘inveja criativa’ e quando ele ouviu Que País é Este foi aquela inspiração p/ ele escrever Brasil, que é uma das músicas... mais importantes. E todo mundo fala nos músicos dos anos 80... e o interessante disso é que Cazuza não é só dos anos 80... é pra sempre.”

Marina Lima fala de Renato Russo


Amigos legionários;

Esse texto é de uma fonte não identificada; reli essa semana no meu arquivo de reportagens da Legião Urbana e me emocionei com o depoimento que a cantora pop Marina Lima deu sobre o Renato, seu amigo pessoal, logo após a partida do nosso poeta. Impossível as palavras dela não nos cativarem, confirmando a personalidade tão forte e a sensibilidade de um poeta que foi embora cedo demais, deixando-nos um exemplo de força e coragem. Mas as pessoas especiais são eternizadas e nós, fãs, jamais nos esqueceremos dele.
Confiram!

Abraços... Força sempre!
Paulo Avila

Marina Lima fala sobre Renato Russo

“Fiquei muito impressionada. Triste, mas muito impressionada. A sensação que tive foi a de que ele passou os últimos anos de vida preparando as pessoas para a partida dele e (gagueja) dando ao mundo o que ele achava que podia dar de melhor. Fiquei muito emocionada com isso, achei muito generoso. A gente não sabia que ele estava doente, especulava-se, mas poucos sabiam. E hoje penso que ele não queria que ninguém achasse que ele estava fazendo certas coisas porque estava doente, ele queria que achassem que estava apenas fazendo. Então ele começou a ajudar causas sociais, a causa gay, começou a fazer várias coisas para deixar o melhor dele antes de partir e ajudar as pessoas. É uma coisa para mim muito emocionante porque foi um homem muito generoso e muito discreto também. Eu admiro pessoas discretas, tenho uma queda por isso. E ele fez o melhor até comigo. Conversava muito com ele que nós mulheres não temos uma história oficial, a história é sempre contada pela versão dos homens, os registros são os homens que fazem e, no meu aniversário retrasado, o Renato me deu quatro livros sobre a história das mulheres (sorri). Ele fazia o que podia para ajudar cada um, entende. Porque ele estava partindo acho que queria deixar o melhor dele. É lindo. Ele me ensinou muita coisa, não só com a música dele, mas também com a partida dele, com a forma generosa de partir”.

Marina Lima

quarta-feira, 4 de março de 2009

Um aviso...

Para quem está visitando o meu blog agora: estou disponibilizando aos poucos partes da minha monografia A POÉTICA ROMÂNTICA DE RENATO RUSSO, que fiz ano passado na conclusão do curso de Letras. Espero que gostem!

FORÇA SEMPRE!

terça-feira, 3 de março de 2009

A Poética Romântica de Renato Russo - "Renato Russo: o poeta místico"

5.5. Renato Russo: o poeta místico
O romântico, em vez da razão, deixa que a fé guie o seu espírito. Segundo Coutinho (1969: 6), não é o pão somente que satisfaz o romântico; idealista, aspirando a outro mundo, acredita no espírito, e na sua capacidade de reformar o mundo. O próprio Renato comentara em 1989, ao lançar o quarto álbum da Legião Urbana, “As Quatro Estações”, que a maior questão política do momento era a espiritual (FINATTI & MENDES, 1996: 71). É importante lembrarmos que esse álbum foi lançado em um momento difícil na vida de Renato, em que ele estava usando muitas drogas e havia passado por um momento delicado no ano anterior, quando uma apresentação muito esperada em Brasília terminou em pancadaria, com centenas de feridos e pessoas presas. Tudo isso fez Renato ser mais contemplativo e reflexivo, escrevendo sobre temas mais espirituais. Vindo de uma família católica, a religião e seus preceitos estavam presentes em sua vida e já apareciam desde o primeiro álbum. Em “Baader-Meinhof Blues”, ele critica uma sociedade que acha que “afinal, amar ao próximo é tão démodé”.
Porém, no já mencionado quarto álbum, Renato foi muito mais profundo na religiosidade. Em “Monte Castelo”, Renato aproveitou versos do capítulo XIII da primeira carta de São Paulo aos Coríntios e do soneto XI de Luis de Camões para compor uma belíssima canção de amor:
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
sem amor eu nada seria.
É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece.

O amor é o fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer.

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
sem amor eu nada seria.

É um não querer mais que bem querer.
É solitário andar por entre a gente.
É um não contentar-se de contente.
É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade.
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrario a si é o mesmo amor.

Estou acordado e todos dormem
todos dormem todos dormem.
Agora vejo em parte
Mas então veremos face a face.
É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade.

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
sem amor eu nada seria.
“Pais e Filhos” é uma canção que apresenta em cada verso os mais diversos tipos de experiências e relacionamentos familiares. Nela, temos um refrão redentor:

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Por que se você parar para pensar, na verdade não há.
Em “1965 (Duas Tribos)”, a canção mais política desse quarto álbum, que fala dos horrores da ditadura militar, traz em sua letra os seguintes versos:
Quando querem transformar
Esperança em maldição:
É o bem contra o mal
E você de que lado está?
Estou do lado do bem
E você de que lado está?
Estou do lado do bem
Com a luz e com os anjos.

Mas a religiosidade romântica de Renato Russo não se limitava apenas ao cristianismo. Renato era místico e bebia em várias fontes. Em “Quando o Sol Bater na Janela do teu Quarto” o cristianismo e o budismo encontram-se, criando um diálogo inter-religioso:

O sol nasce pra todos
Só não sabe quem não quer.

(...)

Tudo é dor
E toda dor vem do desejo
De não sentirmos dor.

“Se Fiquei Esperando meu Amor Passar” finaliza o álbum, idealizando o amor: “Quando se aprende a amar o mundo passa a ser seu”. Passa pelo momento da dúvida, da incerteza entre manter as aparências e viver os sentimentos em sua completude, sem mentir para si mesmo, ainda que possa ir contra as normas sociais vigentes, buscando assim a liberdade e a sinceridade no amor.

Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que estava então longe de sereno
E fiquei tanto tempo duvidando de mim
Por fazer amor fazer sentido.

Começo a ficar livre
Espero. Acho que sim.
De olhos fechados não me vejo.
E você sorriu pra mim.

O final da canção termina com um trecho da liturgia católica, o Agnus Dei, pedindo perdão pela incapacidade humana de amar plenamente e implorando pela paz.

"Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo
Tende piedade de nós.
Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo
Tende piedade de nós.
Cordeiros de Deus que tirai os pecados do mundo
Dai-nos a paz."

No encarte desse álbum, Renato diz que há também referências do Tao-Te-King (o livro do Caminho Perfeito), de Lao Tsé, em algumas letras.
No sétimo álbum, Renato cita a regra de ouro na canção “A Fonte”, muito comum na filosofia oriental, para depois citar a mitologia grega e a passagem deste mundo para o vale dos mortos:

Não faça com os outros o que você não quer
Que seja feito com você

(...)

Do lado do cipreste branco
À esquerda da entrada do inferno
Está a fonte do esquecimento:
Vou mais além, não bebo dessa água.
Chego ao lago da memória
Que tem água pura e fresca
E digo aos guardiões da entrada:
- Sou filho da Terra e do Céu
Dai-me de beber,
que tenho uma sede sem fim.

No nono álbum, “Uma Outra Estação”, lançamento póstumo lançado em 1997, encontramos no encarte uma letra chamada “Sagrado Coração”, que Renato compôs, mas não há registro da sua voz. Então o que temos ao ouvir a canção é tão-somente a base instrumental. Lendo a letra, percebemos o desejo de religiosidade em Renato, que tenta compreender o mundo e as atitudes das pessoas, procurando encontrar um caminho em meio ao seu desânimo, desesperança e até mesmo falta de fé. Parece-nos que ele busca encontrar um lugar idealizado. A letra faz alusão ao Sagrado Coração de Jesus, em que o povo, em orações, pede a sua proteção:

Sei que tenho um coração
Mas é difícil de explicar
De falar de bondade e gratidão
E estas coisas que ninguém gosta de falar
Falam de um lugar
Mas onde é que está?
Onde há virtude e inteligência
E as pessoas são boas e sensíveis
E que a luz no coração
É o que pode me salvar
Mas não acredito nisso
Tento, mas é só de vez em quando

Onde está este lugar?
Onde está essa luz?
Se o que vejo é tão triste
E o que fazemos tão errado?
E me disseram!
Este lugar pode estar sempre ao seu lado
E a alegria dentro de você
Porque sua vida é luz
E quando vi seus olhos
E a alegria no seu corpo
E o sorriso nos seus lábios
Eu quase acreditei
Mas é tão difícil
Por isso lhe peço, por favor
Pense em mim, ore por mim
E me diga: - este lugar distante está dentro de você
E me diga que nossa vida é luz
Diga que nossa vida é luz
Me fale do sagrado coração
Porque eu preciso de ajuda

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A Poética Romântica de Renato Russo - "Renato Russo: o poeta sonhador"


5.4. Renato Russo: o poeta sonhador
O romântico deseja um mundo novo pelas vias do sonho, da imaginação. Dessa forma, percebemos na poesia de Renato Russo o desejo de sonhar, em detrimento da realidade que ele não aceita. Em “Eu era um lobisomem Juvenil”, do quarto álbum, diz:

Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo
Prefiro acreditar no mundo do meu jeito.

O desejo de sonhar com um mundo melhor leva o eu lírico a buscar o diálogo, a encontrar sintonia com o outro em meio à falta de diálogo na sociedade corrompida, como pode ser visto em “Petróleo do Futuro”, do primeiro álbum:

Ah, se eu soubesse lhe dizer o que eu sonhei ontem à noite
Você ia querer me dizer tudo sobre o seu sonho também.
E o que é que eu tenho a ver com isso?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Monografia "A poética Romântica de Renato Russo" - Renato Russo, o reformista


5.3. Renato Russo: o reformista
Os românticos tinham o desejo de criar um novo mundo, de lutar por direitos humanos, por liberdade, enfim, de revolucionar.
Renato Russo foi um revolucionário, um inconformado, um rebelde, com desejo de justiça e liberdade, o que pode ser visto em várias letras. Em “Geração Coca-Cola”, por exemplo, Renato convida a juventude à revolução:

Depois de vinte anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser?

Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então, vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis.

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Nós somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Monografia "A Poética Romântica de Renato Russo" - Renato Russo: o poeta da emoção subjetiva

5.2. Renato Russo: o poeta da emoção subjetiva
As letras de Renato Russo seguiram uma coerência poético-romântica.
Podemos ver algumas características românticas (COUTINHO, 1969: 6-7) e compará-las com a temática abordada por Renato Russo nas letras da Legião Urbana:

· Subjetividade e individualismo
Renato Russo escreveu letras confessionais, falou sobre as tristezas que machucavam o seu coração, sobre suas dores emocionais, sobre amor, sentimentalismo.
Sobre o seu individualismo, Renato Russo disse: “Sou anarquista e individualista, tenho uma visão poética, mas não me considero poeta. Procuro o belo” (PASSOS, 1995: 24).
“Será”, do primeiro álbum, traz versos que explicitam bem a visão romântica de Renato Russo, de um país que emergia dos escombros do regime militar e vislumbrava uma lenta abertura democrática, com o início da campanha “Diretas-Já”. Individualismo, solidão e a não pertença a nenhuma forma de dominação são traços românticos presentes na letra:

Tire suas mãos de mim
Eu não pertenço a você
Não é me dominando assim
Que você vai me entender
Eu posso estar sozinho
Mas eu sei muito bem aonde estou
Você pode até duvidar
É só que isso não é amor.

Numa de suas letras mais subjetivas, “Soul Parsifal”, do oitavo álbum, Renato mostrava bem a sua individualidade, ao mesmo tempo em que fazia um balanço de sua vida:

Ninguém vai me dizer o que sentir
Meu coração está desperto
É sereno o nosso amor
E santo este lugar.

Dos tempos de tristeza
Tive o tanto que era bom
Eu tive o teu veneno
E o sopro leve do luar.

Porque foi calma a tempestade
E tua lembrança, a estrela a me guiar
Da alfazema fiz um bordado
Vem, meu amor, é hora de acordar.

Tenho anis, tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho um jardim e uma canção.

Vivo feliz, tenho amor
Eu tenho um desejo e um coração
Tenho coragem e sei quem eu sou
Eu tenho um segredo e uma oração.

Vê que a minha força é quase santa
Como foi santo o meu penar
Pecado é provocar desejo e depois renunciar.

Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado.

Não falo pelos outros
Só falo por mim
Ninguém vai me dizer o que sentir.

Tenho jasmim, tenho hortelã
Eu tenho um anjo, eu tenho uma irmã
Com a saudade teci uma prece
E preparei erva-cidreira no café da manhã.

Ninguém vai me dizer o que sentir
E eu vou cantar uma canção pra mim.
Em “Uma Outra Estação”, do nono álbum, Renato afirma sua subjetividade:
Não me digam como devo ser
Gosto do jeito que sou.

Em “Sete Cidades”, do quarto álbum, Renato expressou seus sentimentos em relação ao amor:

Meu coração é tão tosco e tão pobre
Não sabe ainda os caminhos do mundo.
Quando não estás aqui
Sinto falta de mim mesmo
E sinto falta do teu corpo junto ao meu.

· Ilogismo
Não havendo lógica na atitude romântica, vemos a oscilação entre pólos opostos de alegria e melancolia, entusiasmo e tristeza (COUTINHO, 1969: 6).Renato Russo encaixa-se bem nessa característica, uma vez que ele mesmo se considerava psicótico-maníaco depressivo, como já comentado antes, alternando fases de alegria (ou pelo menos de serenidade pragmática) e depressão profunda.“Quase sem Querer”, do segundo álbum, mostra bem isso:

Tenho andado distraído,
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso
Só que agora é diferente:
Estou tão tranqüilo e tão contente.

Em “Uma Outra Estação”, do nono álbum, a instabilidade do espírito do eu lírico novamente nos coloca diante de signos e imagens:

Sei que não tenho a força que tens
Se me vejo feliz quase sempre exijo um talvez.
Ela mora perto de um vulcão
E meu coração suburbano espera riquezas maiores.
Eu sigo o calendário maia
Sou descendente dos astecas

· Senso de Mistério
O espírito romântico, segundo Coutinho (1969: 6), é atraído pelo mistério da existência e, na sua individualidade, encara o mundo com espanto, pois tudo lhe parece sempre novo: a melancolia, a própria vida, que ele procura viver independente de tradições.Renato Russo, em suas letras intimistas, sempre demonstrou fascínio pelo mistério da vida, do universo, da existência. Em “Quase sem Querer” mostra-se fascinado pelas coisas que não têm explicação, entre a complexidade e o cotidiano:

Tão correto e tão bonito
O universo é realmente
Um dos deuses mais lindos.
Sei que às vezes uso palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?
· Escapismo
Renato Russo, diante de uma sociedade caótica, sonhava com um mundo idealizado e perfeito, onde o amor e o respeito prevalecessem. Em “Vamos Fazer um Filme”, Renato nos apresenta imagens carregadas de muita emoção para mostrar como deveria ser o mundo.
A letra começa mostrando o amor como o grande salvador. O eu lírico, saudoso, busca na imagem (fotografia) a volta ao passado. Tal temática é constante no Romantismo, como nos poemas de Casimiro de Abreu:

Achei um 3x4 teu e não quis acreditar
Que tinha sido há tanto tempo atrás
Um exemplo de bondade e respeito
Do que o verdadeiro amor é capaz.

O poeta sente a necessidade de criar um mundo maravilhoso, que foge da lógica e do racional. Vale lembrar que o Romantismo trabalha também com o ilogismo. Assim, as imagens desse escapismo são cinematográficas:

Sem essa de que: "Estou sozinho."
Somos muito mais que isso
Somos pingüim, somos golfinho
Homem, sereia e beija-flor
Leão, leoa e leão-marinho.

Logo em seguida, mostra toda a sua carência e a necessidade de ter a sua individualidade respeitada:

Eu preciso e quero ter carinho, liberdade e respeito
Chega de opressão
Quero viver a minha vida em paz.
Quero um milhão de amigos
Quero irmãos e irmãs
Deve de ser cisma minha
Mas a única maneira ainda
De imaginar a minha vida
É vê-la como um musical dos anos trinta
E no meio de uma depressão
Te ver e ter beleza e fantasia.

Renato questiona sobre a vivência do amor numa sociedade sem compaixão e que se esqueceu de valorizar os sentimentos mais puros e sem interesses mesquinhos. O final lembra o clássico happy end dos filmes de amor:

E hoje em dia, como é que se diz: "Eu te amo."?
Eu te amo
Eu te amo
Eu te amo

Sobre essa letra, comentaram Castilho & Schlude (2002: 81):

Os escapismos dão-se em várias letras como em “Vamos fazer um Filme”. A necessidade de se libertar dessa vida como um todo é uma necessidade constante, está de acordo com o mal-estar do eu romântico que anseia escapar desse mundo.

Monografia "A Poética romântica de Renato Russo" - Renato Russo: o poeta engajado


5.1. Renato Russo: o poeta engajado
No início dos anos 80, o nevoeiro da ditadura militar havia se dissipado e o Brasil começava a viver um processo de democratização e Diretas-Já, em que o povo reivindicava seu direito ao voto.
Tancredo Neves surgia como uma esperança para o povo, símbolo de novos tempos, primeiro presidente depois do período militar. O Colégio Eleitoral elegeu-o em 1985, mas sua doença e morte naquele mesmo ano fizeram com que José Sarney assumisse o governo do país. O plano cruzado deu ao povo a utopia de um futuro melhor, mas o que se viu foi a inflação subir de forma estratosférica, o desemprego ganhar proporções alarmantes, muita insatisfação nas ruas, miséria, um período que até a musica brasileira, como protesto e voz do povo, não apresentava novidades. Surgiam assim grupos de defesa aos Direitos Humanos, ONG’s (Organizações Não Governamentais) defendendo o meio ambiente e contra a devastação ecológica.
A juventude mostrava a sua força em meio à insatisfação social. Havia ainda o pesadelo da AIDS (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida) que pegaria toda uma geração desprevenida.
Podemos dizer que o grande problema da década de 80 foi, com certeza, a distância econômica e social entre os países desenvolvidos e os do Terceiro Mundo. Graças às desastrosas ditaduras militares que oprimiram o país nos anos 60 e 70, o Brasil sofreu – assim como a maioria dos países latino-americanos – por um modelo de desenvolvimento capitalista desequilibrado, associado ao capital estrangeiro, em que o lucro ficava concentrado nas mãos de poucos privilegiados (Brandão & Duarte, 1993: 105).
Assim, esse modelo econômico de tais governos autoritários, sustentado por empréstimos feitos no exterior, entrou em crise no final dos anos 70. O país se viu diante da sua maior crise econômico-social, mesmo com os primeiros passos para uma abertura política com as eleições para governador a partir de 1982, a elaboração de uma nova Constituição em 1988 e a eleição direta para a presidência da República em 1989, que há 29 anos era reivindicada pelo povo brasileiro, principalmente em 1984 com o movimento popular “Diretas-Já”, em que o povo reivindicava seu direito ao voto (Brandão & Duarte, 1993: 105).

Rodrigues (1992: 13) lembra:

A pressão dos movimentos sociais – greves, sindicatos, organizações de bairro, entidades profissionais – foi fator fundamental para a conquista de abertura, mas não para garantir sua condução realmente democrática.

Rodrigues (1992: 53-54) comenta ainda que, embora na década de 80, a AIDS tenha aparecido como a maior ameaça à saúde dos brasileiros, as piores doenças que afligiram o povo foram as causadas pela fome e pela falta de saneamento básico. Dessa forma, as condições de alimentação, higiene e habilitação estão intimamente ligadas ao índice de mortalidade infantil.
Outro motivo preocupante nos anos 80, além da tuberculose, do sarampo, da lepra e da doença de Chagas apresentarem números alarmantes, era o retorno de doenças transmissíveis pelo mosquito, como a malária. Outro fator também alarmante eram as doenças provenientes de baixas condições de higiene e segurança no trabalho (Rodrigues, 1992: 54).
As grandes capitais apresentam, ainda segundo Rodrigues (1992: 55), contrastes que mostram bem o quadro social alarmante do país: edifícios e automóveis de luxo, favelas e carroças, enfim, abundância e miséria. Todas essas desigualdades, acrescidas da má distribuição de renda num país tão rico em que poucos detêm do poder e dos privilégios, geram violência e caos.
Rodrigues (1992: 55) comenta que grande número de desempregados, subempregados e mesmo os trabalhadores têm de enfrentar problemas diversos como o desemprego, a moradia, os baixos salários, a carestia, os altos aluguéis, a inflação... Dessa forma, muitos são obrigados a viver em lugares precários, como cortiços e favelas, sem falar no grande número de desprivilegiados que acaba indo morar nas ruas.
Muitos moram na periferia, o que causa um excessivo cansaço e o pouco tempo para o descanso após um longo dia de viagem para o trabalho, acarretando acréscimos com gastos com o transporte e alimentação. Assim, muitos acabam não tendo acesso à saúde, à cultura e à educação. O vestuário e o lazer tornam-se cada vez mais raros, ficando a diversão reduzida aos programas de televisão (Rodrigues, 1992: 55).
Esse quadro de baixas condições sócio-econômicas, segundo Rodrigues (1992: 56), reproduz a pobreza e a desigualdade, principalmente entre as crianças e os jovens. Há ainda o grande problema da violência produzida pelo enorme desequilíbrio social.
Nas famílias mais pobres é de onde sai o grande contingente de crianças e jovens de menores abandonados: parte deles acaba cometendo pequenos delitos (os chamados menores infratores); a outra parte ingressa prematuramente no mercado de trabalho, abandonando cedo a escola para ajudar as suas famílias (Rodrigues, 1992: 56).

A música da Legião Urbana e as letras de Renato Russo refletiriam, inseridas no movimento do rock brasileiro anos 80, esse momento conturbado, confuso e de insatisfação no Brasil do século XX, tal como foi com o Romantismo na época da Revolução Industrial no século XIX. Em ambos, um movimento de vanguarda dava voz e vez ao povo, fazia as pessoas expressarem seus sentimentos, interagirem e extravasarem as suas insatisfações.
A Legião Urbana seguiu um caminho de sucesso, uma resposta aos anseios dos jovens, que queriam exprimir o que pensavam sobre a realidade caótica do país, mas não conseguiam. A cada novo álbum aumentava a devoção e o culto à banda e, principalmente, a Renato Russo, que atingia em cheio o público com suas letras confessionais, políticas e espirituais, falando de amor, amizade, ética, política e respeito – uma forma de mostrar a sua aversão aos valores consumistas, corruptos e hipócritas que proliferavam na sociedade.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Monografia "A poética Romântica de Renato Russo" - Renato Russo, o Romântico


V. Renato Russo, o Romântico
Renato Russo foi, definitivamente, um poeta.
Sua trajetória, seu estilo de vida, seus ideais, seus anseios, sua melancolia, sua rebeldia, sua individualidade são dignas de um poeta romântico do século XIX.
Quando perguntado, numa entrevista ao Jô Soares em 1994, se ele se considerava um lírico, Renato foi incisivo em sua resposta: Romântico.
Essa distinção de Renato é importante para analisar o seu trabalho como uma obra influenciada pelas características românticas. Isso porque canções que tratam de amor e de desilusões afetivas logo são caracterizadas como românticas, quando na verdade são canções líricas por retratarem sentimentos amorosos. Renato, ao responder ao Jô Soares, sabia bem a diferença entre ambos, uma vez que ele se referiu ao Romantismo como ideário poético do século XIX para traçar um paralelo com o seu trabalho.
José Emílio Rondeau, produtor do primeiro álbum da Legião Urbana, ficou impressionado quando conheceu Renato Russo no estúdio, não só pela sua voz e pelas suas letras fortes: segundo Rondeau, Renato “parecia um cavaleiro romântico atravessando tempestades e vendavais para chegar no amor” (Dapieve, 2000: 66).
Ele não foi apenas um poeta romântico de uma fase: Renato Russo viveu as três fases do Romantismo em sua poesia, transcritas para o mundo contemporâneo.
Seguindo a idéia do poeta romântico ser um profeta, um reformador, ou como disse Bosi (2006: 95), “o poeta-vate, o gênio portador de verdades, cumpridor de missões”, Renato conquistou milhares de fãs jovens e adultos, com suas letras de ordem, seus temas confessionais, seus discursos nas apresentações ao vivo, o que fez com que o chamassem de profeta, messias, irmão mais velho da juventude brasileira.
Terno e agressivo, alternando momentos de exultação e de profunda melancolia (alguns o chamariam de depressivo), Renato Russo teve uma vida intensa, curta e conturbada, assim como muitos poetas da segunda geração romântica.
Ele era um insatisfeito com a vida do povo, com os problemas do país:

O Brasil é um país que não é uma nação, onde a vítima é ré, e não se respeita mulher, negro e homossexual (1988). (ASSAD, 2000: 40)

A gente não é como esses caras. Eu sou brasileiro! Esses caras não são brasileiros. Polícia que mata criança, traficante... essas pessoas assim são animais. A gente acredita no Brasil. Existem muitas coisas legais. Ficam querendo que a gente seja ladrão, que seja do jeito que eles são. Nós não somos, não (1993). (ASSAD, 2000: 40)

Em sua melancolia entregava-se aos vícios, principalmente calmantes e álcool. Seu estado de espírito sempre oscilava e, nesses momentos de tristeza encontrava forças para compor letras existenciais, intimistas, que expunham seu coração amargurado e suas feridas emocionais.
Parecia viver num mundo que não era o dele, não conseguia se ajustar ao modo de vida da sociedade, assim como os românticos. Sua insatisfação era bem visível em suas letras, como em “O Teatro dos Vampiros”, do quinto álbum, em que depressão, melancolia, falta de afeto e problemas sociais criam um ambiente carregado e triste:

Sempre precisei de um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto
E destes dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos.

(...)

Quando me vi tendo de viver
Comigo apenas e com o mundo
Você me veio como um sonho bom
E me assustei:
Não sou perfeito
Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber.

Segundo Dapieve (2000: 62),

desde muito jovem, Renato tinha crises de depressão, às vezes associada a uma revolta por assim dizer metafísica. Um dia seu pai foi surpreendido pelo barulho vindo do seu quarto. Lá chegando viu-o jogando pilhas e pilhas de livros no chão, com raiva. “O que houve, filho?”, tentou entender. “Não adianta tudo isso aí, pai, elas não têm respostas para as minhas perguntas”, reclamou.


Em 1984, Renato, então com 24 anos de idade, cortou os pulsos devido a uma desilusão amorosa. Isso porque ele era muito carente e capaz de apaixonar-se e se decepcionar com a mesma facilidade (DAPIEVE, 2000: 61).
Ele ficava também muito deprimido com os problemas sociais, parecia que queria realmente carregar o mundo inteiro nas costas. Sua mãe dizia que ele ficava muito deprimido com imagens de pessoas passando fome na Conchinchina e chegava a brigar com seus pais por vê-los assistindo ao telejornal, uma vez que este só mostrava tragédias e desgraças. Por isso Renato preferia se refugiar em seus livros e cadernos culturais (DAPIEVE, 2000: 62).
Em determinado momento de sua vida chegou a dizer para a sua mãe que não era desse mundo. “Meninos e Meninas”, canção do quarto álbum, “As Quatro Estações”, afirma:

Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui.

Sua insatisfação romântica era bem clara e por isso o desejo de evasão, de fugir de uma cidade grande que não respeita o diferente. Nesse caso, ele fala da sua própria condição de homossexual e todos os preconceitos e hipocrisias existentes na sociedade.
Sua sexualidade não foi segredo para ninguém: com coragem abriu seu coração com sinceridade cativante para o grande público. Sua mãe, no entanto, já sabia de sua homossexualidade desde que o filho tinha 18 anos, quando ele resolveu contar-lhe a verdade (DAPIEVE, 2000: 61).
Suas declarações sempre foram polêmicas, nas apresentações da sua banda ou nas entrevistas concedidas aos meios de comunicação, o que mostra a sua capacidade de usar a palavra e se expressar para o grande público.
Renato Russo descobriu-se portador do HIV em 1990, logo depois de uma grande turnê divulgando o álbum “As Quatro Estações”. Se a vida poderia ser breve, a sua obra seria, com certeza, intensa e produtiva.

Ele comentou várias vezes que era psicótico-maníaco depressivo, por isso alternava momentos em que estava bem e momentos em que estava muito mal. E nessas fases difíceis mergulhava fundo, como já mencionado, nas drogas e, principalmente, no álcool e nos calmantes.
Sobre o álcool, ele comentou:

Bebo porque tem garoto de 15 anos sendo morto pela polícia e menininhas sendo estupradas (1993). (ASSAD, 2000: 24)

Bebia porque sofria; depois, sofria porque bebia. E bebia muito para ser aceito, para que gostassem de mim (1995). (ASSAD, 2000: 25)

Mostrou humildade ao decidir-se ser internado numa clínica para dependentes químicos em Vila Serena, Rio de Janeiro. Lá, descobriu a programação dos doze passos dos Alcoólicos Anônimos e decidiu cuidar da sua saúde. Afinal, ele era muito autodestrutivo e não queria passar uma imagem negativa para o seu filho Giuliano, que na época (1993) tinha apenas quatro anos de idade. Quando saiu de lá, comentou que na clínica eles tentavam devolver a espiritualidade das pessoas (PASSOS, 1995: 26).


Refeito, buscou forças para continuar trabalhando no que ele mais gostava: música, com a Legião Urbana e em dois projetos solo como intérprete (um álbum com sucessos em inglês e outro em italiano).
Dapieve (2000: 154) lembra que Renato teve uma recaída no álcool em 1995 e deu um vexame num vôo na volta de Brasília, aonde tinha ido visitar os pais e o filho (que morava com os avós), para o Rio de Janeiro.
A causa era mais uma desilusão amorosa. Renato, quando se apaixonava, entregava-se de corpo e alma, e ficava muito deprimido quando não dava certo. “Nada é fácil, nada é certo / Não façamos do amor algo desonesto”, cantou ele, já muito cansado e deprimido, em “L’Avventura”, do álbum “A Tempestade”, o último lançado com Renato em vida.
Ele mesmo já havia comentado numa entrevista a Zeca Camargo, em 1993, repórter que na época trabalhava para o canal de televisão MTV (Music Television):

Eu acreditei muito tempo em amor romântico. Hoje em dia eu não acredito em amor romântico, não. Eu acredito em respeito e amizade. De repente, sexo e tudo. Ou, então, expressão física. Mas é assim: respeito e amizade. Porque paixão, essa coisa de amor romântico mesmo, acho que traz muito sofrimento e sempre acaba (1993). (ASSAD, 2000: 27)

Assim, parece certo que a sua depressão ajudou a acelerar os avanços da AIDS, com algumas febres esparsas. Em 1996 a banda entrou em estúdio para gravar aquele que seria o último álbum, “A Tempestade (ou O Livro dos Dias)” – as sobras deste álbum seriam lançadas em 1997 no póstumo e simbólico “Uma Outra Estação” (“estou longe, longe, estou em outra estação”, cantaria Renato neste álbum póstumo, explicitamente um desejo de escapismo para um outro plano, um lugar distante).
Cansado e debilitado pela saúde, sua voz fraquejou nas linhas melódicas mais difíceis, deixando os companheiros Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, muito tristes, pois percebiam que o seu amigo estava morrendo à vista de todos. Outra saída foi restringir o número de profissionais trabalhando no estúdio, uma vez que Renato não estava bem e se mostrava agressivo a um simples cumprimento (Dapieve, 2000: 159).
Gravou apenas a voz-guia (espécie de rascunho para orientar o músico nas gravações) e não refez mais nada: foi para o seu apartamento e deu orientações por telefone de como o álbum deveria sair. Estava muito irritado e brigou muito com seus amigos, pois achava que eles estavam perdendo a intuição.


Enfim, “A Tempestade (ou o Livro dos Dias)” foi lançado em setembro de 1996 e causou estranhamento na crítica e no público: as letras eram amargas e depressivas.
Renato recusou-se a dar entrevistas e os boatos sobre a sua doença aumentavam cada vez mais, embora ele negasse veemente há um bom tempo. Apenas alguns amigos mais próximos e seus familiares sabiam que ele era soropositivo. O grande público manteve-se ignorante do seu real estado até ao fim.
Assim, no dia 11 de outubro de 1996, Renato Russo faleceu em seu apartamento por complicações decorrentes da AIDS, assistido por enfermeiros particulares e o seu pai, que veio de Brasília para ficar com o filho em seus últimos dias de vida.
A respiração, como disse Dapieve (2000: 14), cedera lugar ao mito.